Negro e brilhante, o enorme lagarto tinha olhos de fogo e dentes feito alabardas, com o fogo fluindo pela boca feito sangue. Quente como uma fogueira, se colocou sobre as escamosas patas traseiras e se lançou no vento, como uma pluma. As gigantescas asas de vampiro dançando no vento, nadando nas nuvens com graça mortal. A coluna ardente jorrou de seus dentes, açoitando as estrelas, que se efervesciam com sua passagem. Anélia sabia estar derrotada desde o início, não havia ser humano vivo capaz de enfrentar o gigantesco demônio alado.
O animal despencou dos céus feito uma flecha, mirando nela com os olhos refulgentes. No último segundo, abriu as asas e planou a centímetros do chão, ardendo em uma gigantesca bola de chamas, ferindo o solo com uma risca carbonizada. O fogo derreteu a rocha e formou um caminho derretido por entre as escarpas. Voltou a subir, ainda com a pele ardendo, refulgindo mais que o próprio sol, apenas para mergulhar novamente e riscar a terra com mais força, transformando a rocha em mel negro, que escorria pelo calor abrasivo do próprio inferno.
sábado, 10 de novembro de 2012
terça-feira, 11 de setembro de 2012
Dormia em seus sonos ébrios, embalada suavemente pela própria infelicidade, o mais poderoso dos anestésicos. Os cabelos dourados rolavam feito um desastre natural, do sofá cor de vinho tinto até o tapete branco. A pele macia era cor de creme, nem branco nem alabastro, mas creme batido, polvilhado de canela em alguns lugares, contrastando com o vestido marfim que escorria pelo aposento feito água, espalhado em volta de seu corpo feito imenso cobertor. Parecia um anjo alvejado, caido meio sem jeito sobre o sofá, com um copo virado no chão e um tiara nupcial de diamantes largada de qualquer jeito como se fosse um par de meias. No cabelo havia ainda alguns grampos de pérola engastados, mas a maioria jazia pelo aposento feito formigas, às centenas. Despedaçara a mão as imensas rosas vermelhas do buquê, e o quarto tinha um leve cheiro de jardim com os retalhos de pétalas espalhados pelo quarto como uma tempestade de sangue. Ainda estava com os sapatos e com os brincos de esmeralda, assim como o opulento colar de esmeraldas que fora presente do noivo.
Foi nesse cenário de pesadelo que Lorde Koster se encontrou. A janela fora deixada aberta, e fora fácil escalar a mureta do castelo e transapassar a janela aberta, já que a biblioteca ficava no térreo. Não esperava encontrar a noiva rebelda, pois imaginava que ela fugiria para qualquer outro lugar no planeta, mas esperava encontrar ao menos pistas de seu paradeiro ameaçando os criados longe das vistas de Lorde Castle. Foi uma agradável surpresa encontrar a noiva ali, claramente desmaiada pelo efeito do álcool, ainda vestida como uma noiva virginal que pertencia a ele. Saltou do parapeito para o chão com cuidado, porém a princesa nem estremeceu com o ruído de suas botas no assoalho.
Não havia pensado muito sobre o que faria quando a encontrasse. Apenas queria encontra-la, e depois decidia. Agora que a tinha vulnerável, não tinha ideia do que fazer. Atravessou o quarto e sentou-se no sofá ao lado de sua cabeça coroada pelos cabelos dourados, pensando. Foi instintivamente que ele lançou mão a seu pescoço alvo, porém parou em meio movimento. Certamente a donzela merecia morrer. Não se foge ao compromisso com Lorde Koster e depois vive para contar tal história. Não havia dúvidas do destino certo para tal criatura.
Porém, pensou melhor. Para que mata-la? Para todos os efeitos práticos ela já o pertencia,
Foi nesse cenário de pesadelo que Lorde Koster se encontrou. A janela fora deixada aberta, e fora fácil escalar a mureta do castelo e transapassar a janela aberta, já que a biblioteca ficava no térreo. Não esperava encontrar a noiva rebelda, pois imaginava que ela fugiria para qualquer outro lugar no planeta, mas esperava encontrar ao menos pistas de seu paradeiro ameaçando os criados longe das vistas de Lorde Castle. Foi uma agradável surpresa encontrar a noiva ali, claramente desmaiada pelo efeito do álcool, ainda vestida como uma noiva virginal que pertencia a ele. Saltou do parapeito para o chão com cuidado, porém a princesa nem estremeceu com o ruído de suas botas no assoalho.
Não havia pensado muito sobre o que faria quando a encontrasse. Apenas queria encontra-la, e depois decidia. Agora que a tinha vulnerável, não tinha ideia do que fazer. Atravessou o quarto e sentou-se no sofá ao lado de sua cabeça coroada pelos cabelos dourados, pensando. Foi instintivamente que ele lançou mão a seu pescoço alvo, porém parou em meio movimento. Certamente a donzela merecia morrer. Não se foge ao compromisso com Lorde Koster e depois vive para contar tal história. Não havia dúvidas do destino certo para tal criatura.
Porém, pensou melhor. Para que mata-la? Para todos os efeitos práticos ela já o pertencia,
terça-feira, 4 de setembro de 2012
Olhei nos seus olhos. Eram da cinzentos como a tormenta, molhados de escuridão. Olhava em meus olhos, sem medo, sem um emitir um som. Sua voz era tão bonita, mas estava calado. Estava sereno, como um monge sentado numa colina de flores. Eu não. Tenho consciência do ódio ardendo nas minhas veias, da tremdeira em minhas mãos de porcelana, do véu de escárnio enevoando minha visão.
O metal em minhas mãos era deveras mais gelado que o inverno em meu peito. A arma negra se mantinha firme no meu pulso, e seu gelo era incapaz de mascarar o calor dos infernos que explodiria no momento em que eu apertasse o gatilho. Os segundos se passavem como em contagem regressiva, e o próprio tempo prendeu a respiração, num silêncio de ensurdecer os sanos. Mesmo a luz se paralisou, infecta pelo esgar sofrido da minha respiração. Ele, no entanto, estava alheio. Seu olhar não implorava, seu corpo relaxado não parecia temer o disparo menos que ansia-lo. Era tão belo, mesmo ali, mesmo agora. A beleza, como aprendi, é imune mesmo à mais imunda das maldades. Parecia sorrir, seu sorriso luminoso e irônico, o sorriso de um pecador.
O cheiro de tulipas ia se intensificando. Eu havia aprendido a relacionar tal cheiro suave com a presença da morte, sabia que seu agradável odor era a simples antecipação da escuridão. Tal consciência, porém, não me acalmou. A morte em si era terrível, mas o assasinato deixava uma mancha na alma que não podia ser lavada e nem retirada sob nenhum preço. A vida dele não tal sacrifício, o de carregar nos ombros a alma acorrentada de um assasinato. O preço de um assasinato era pagar pelos pecados alheios, e eu não estava disposta a carregar em meus ombros as homéricas ofensas desse homem sem alma.
Sua mera existência, porém, era uma afronta a todo o meu ser. Sua beleza obscura e sibilante, como um felino nas sombras, havia me tomado por completo. Com um chicote de domador ele havia subjugado meu espírito, me despido da dignidade e hipnotizado minha alma nua e obediente. Era como um sol imenso e ofuscante, enegrecendo tudo que havia a minha volta. Era como uma força da natureza, inesgotável, implacável, me domando e dominando, até que eu fosse uma simples serva, escrava, muda, cega e surda, dependente de sua voz como o vício de uma droga.
Eu era incapaz de soltar-me. E não sei como o fiz. Maz amor e adoração são coisas distintas. Amor não acaba. Nunca. É como uma doença crônica, enraizada nos genes, controlável, por vezes até imperceptível. Porém ela nunca desaparece, esperando apenas o menor dos discuidos para desencadear uma crise. Adoração é um fogo que queima e arde, que se alimento do sangue e da alma da pessoa, porém que morre tão logo se esvai o combustível. Eu estava vazia. Tudo em mim estava arrasado e queimado, morto pelo fogo da paixão. Eu era uma casca oca de material inerte, e só sobrara em mim ódio. Tudo de bom havia sido engolido pelo fogo que dominara minha alma quando eu não estava em condições de apaga-lo. Toda essa devastação do meu espírito, todo o inverno em meu peito, tudo isso era culpa dele.
Morrer já não era mais um castigo para ele. A arma em minha mãe suspirava de leve, implorando para explodir. Estávamos nós dois naquele quarto estéril, trancafiados em nossas mentes e imersos em nossos prórpios pesadelos,
O metal em minhas mãos era deveras mais gelado que o inverno em meu peito. A arma negra se mantinha firme no meu pulso, e seu gelo era incapaz de mascarar o calor dos infernos que explodiria no momento em que eu apertasse o gatilho. Os segundos se passavem como em contagem regressiva, e o próprio tempo prendeu a respiração, num silêncio de ensurdecer os sanos. Mesmo a luz se paralisou, infecta pelo esgar sofrido da minha respiração. Ele, no entanto, estava alheio. Seu olhar não implorava, seu corpo relaxado não parecia temer o disparo menos que ansia-lo. Era tão belo, mesmo ali, mesmo agora. A beleza, como aprendi, é imune mesmo à mais imunda das maldades. Parecia sorrir, seu sorriso luminoso e irônico, o sorriso de um pecador.
O cheiro de tulipas ia se intensificando. Eu havia aprendido a relacionar tal cheiro suave com a presença da morte, sabia que seu agradável odor era a simples antecipação da escuridão. Tal consciência, porém, não me acalmou. A morte em si era terrível, mas o assasinato deixava uma mancha na alma que não podia ser lavada e nem retirada sob nenhum preço. A vida dele não tal sacrifício, o de carregar nos ombros a alma acorrentada de um assasinato. O preço de um assasinato era pagar pelos pecados alheios, e eu não estava disposta a carregar em meus ombros as homéricas ofensas desse homem sem alma.
Sua mera existência, porém, era uma afronta a todo o meu ser. Sua beleza obscura e sibilante, como um felino nas sombras, havia me tomado por completo. Com um chicote de domador ele havia subjugado meu espírito, me despido da dignidade e hipnotizado minha alma nua e obediente. Era como um sol imenso e ofuscante, enegrecendo tudo que havia a minha volta. Era como uma força da natureza, inesgotável, implacável, me domando e dominando, até que eu fosse uma simples serva, escrava, muda, cega e surda, dependente de sua voz como o vício de uma droga.
Eu era incapaz de soltar-me. E não sei como o fiz. Maz amor e adoração são coisas distintas. Amor não acaba. Nunca. É como uma doença crônica, enraizada nos genes, controlável, por vezes até imperceptível. Porém ela nunca desaparece, esperando apenas o menor dos discuidos para desencadear uma crise. Adoração é um fogo que queima e arde, que se alimento do sangue e da alma da pessoa, porém que morre tão logo se esvai o combustível. Eu estava vazia. Tudo em mim estava arrasado e queimado, morto pelo fogo da paixão. Eu era uma casca oca de material inerte, e só sobrara em mim ódio. Tudo de bom havia sido engolido pelo fogo que dominara minha alma quando eu não estava em condições de apaga-lo. Toda essa devastação do meu espírito, todo o inverno em meu peito, tudo isso era culpa dele.
Morrer já não era mais um castigo para ele. A arma em minha mãe suspirava de leve, implorando para explodir. Estávamos nós dois naquele quarto estéril, trancafiados em nossas mentes e imersos em nossos prórpios pesadelos,
segunda-feira, 3 de setembro de 2012
Se cometi algum crime na vida,
Foi te amar demais
Criatura amarga, que imaginei ser humana
E que era humana, para meu eterno desagrado
Não te amei como amam a música ou a poesia,
Te amei como se ama o som ou o dom da escrita
Não te amei como amam a lua, as estrelas
Te amei como se ama a própria luz, o próprio poder de percebe-la
Te amei, rainha, como se ama o próprio som do coração batendo
O próprio sangue, tórrido, a escorrer
Te amei como anjo, e eras apenas mulher
Te amei como mulher, e eras apenas monstro
Aprendes, princesa, que um amor jamais é passado
Mas um coração partido é feito fruta podre
jamais volta a ter gosto doce
Amor não se revoga, nem se esconde
Não se promete, nem se decide
É.
Amor é ódio indeciso
É um tiro violento, uma arma carregada
Amor se paga com amor, ou com sangue
Foi crime, amor, o amor que derramei
Um dívida impagável, mesmo que vivesseis por mil anos
Uma dívida de amor e de sangue.
Uma marca perene, cicatriz de fogo na alma
que nem a morte ou a demência pode destruir
Amor de verdade é fogo de vulcão
Não é brasa de palha
ou chama de luxúria
nem fumaça e espelhos
Amor de verdade é pra vida mais que água, é sangue
Ai mulher, te amo
por que amar não se conjuga no passado nem no infinitivo
é primeira pessoa do singular, sempre
Te amo, porém te conheço
eis minha maldição
Foi te amar demais
Criatura amarga, que imaginei ser humana
E que era humana, para meu eterno desagrado
Não te amei como amam a música ou a poesia,
Te amei como se ama o som ou o dom da escrita
Não te amei como amam a lua, as estrelas
Te amei como se ama a própria luz, o próprio poder de percebe-la
Te amei, rainha, como se ama o próprio som do coração batendo
O próprio sangue, tórrido, a escorrer
Te amei como anjo, e eras apenas mulher
Te amei como mulher, e eras apenas monstro
Aprendes, princesa, que um amor jamais é passado
Mas um coração partido é feito fruta podre
jamais volta a ter gosto doce
Amor não se revoga, nem se esconde
Não se promete, nem se decide
É.
Amor é ódio indeciso
É um tiro violento, uma arma carregada
Amor se paga com amor, ou com sangue
Foi crime, amor, o amor que derramei
Um dívida impagável, mesmo que vivesseis por mil anos
Uma dívida de amor e de sangue.
Uma marca perene, cicatriz de fogo na alma
que nem a morte ou a demência pode destruir
Amor de verdade é fogo de vulcão
Não é brasa de palha
ou chama de luxúria
nem fumaça e espelhos
Amor de verdade é pra vida mais que água, é sangue
Ai mulher, te amo
por que amar não se conjuga no passado nem no infinitivo
é primeira pessoa do singular, sempre
Te amo, porém te conheço
eis minha maldição
quarta-feira, 22 de agosto de 2012
segunda-feira, 13 de agosto de 2012
Fugiu nos ombros do animal resfolegante, que batia as asas num esforço fatigante. Tinha um pêlo cor de canela, brilhante como seus olhos, e voava em direção a saturno, livre como as estrelas. Sentia o veludo das penas roçar em seu corpo quando ele batia suas asas de pégaso, sentia a imensidão do universo abandonando-a cada vez mais rápido. O animal tinha olhos feito a lua, voando além das nuvens num galope que deixava profundas marcas de ferradura no manto celeste. Perdera a rédea, uma corda que se inflamara com o sol silencioso, um fio de fogo que queimava no vento que a arrastava para longe. Tão pouco havia estribos, argolas de metal que implodiram até virarem aneis de fumaça. Nada para segurar, a não ser a crina de ondas que dançava tango com o vento, brilhante feito prata. O animal era quente sob ela, como montar uma imensa fogueira. Seu pêlo era doce como cetim, uma manta perfumada, com cheiro de verão e também de inverno. Era como montar uma onda, antes que ela se desfizesse em espuma. Acordou num esgar doloroso, o sonho evaporando feito fumaça, o animal em nenhum lugar a vista. O belo cavalo alado, com pelagem com de canela e crina de prata, olhos redondos e penas de veludo, que prometera lhe levar para longe. Descobriu que ele fora sem ela.
sexta-feira, 3 de agosto de 2012
Stephanía Tyrell talvez fosse, juntamente com a prima Margeary Tyrell, uma das mais belas moças em todo o sul. A casa Tyrell era famosa pela beleza de suas donzelas de sangue quente, e Stephanía não era exceção. O largos aneis negros de seus cabelos caiam em uma pele branca com sardas que pareciam o polvilhar de canela sobre chantilly. Tinha espetaculares olhos cor de turquesa, o rosto anguloso e a elegância dos Tyrell por parte de pai e os lábios carnudos e a esperteza dos Tully por parte de mãe.
quarta-feira, 1 de agosto de 2012
Não há nada de heróico num sequestro. Nada de heróico em aterrorizar uma vila, pessoas mais fracas, pessoas frágeis. Porém, para uma alma quebrada, era tudo o que restava.
Não lhes fazia mal, não fisicamente, pelo menos. Apenas gostava de escraviza-las e aterroriza-las. Fazi-as arrumar o castelo, cozinhas parcas refeições, arar a terra e fazer a colheita, cuidar dos animais e das plantas, limpar os arreios e manter a ordem. Moças jovens, mulheres esturricadas, senhoras respeitáveis, velhas corcundas, não havia preconceito. Não eram muitas, e eram sequestradas aos poucos da vila, para que o terror crescesse aos poucos, estrangulando lentamente. Algumas escapavam, completamente exautas e atormentadas, e algumas eram libertas, por serem completamente inúteis. Voltavam magras e meio cegas da escuridão do castelo, e demoravam a se readaptar. No entanto, nenhuma sequer tinha visto o rosto do castelão e vivido para contar a história.
Não mostrava a face, era um príncipe das trevas, como dramaticamente gostava de se auto denominar. Não tinha um exército, apenas uma gurada violenta e fiel, que sequetrava as mulheres e protegia o castelo. Fora a guarda e as escravas sequestradas, seus empregados, era sozinho no mundo. Não via ninguém e se mantinha trancado no alto da torre, sendo alimentado por uma empregada velha que deixava a bandeija e depois ia embora, sem lhe ver. Gostava de se lacrar no alto da torre, em seus aposentos, onde só recebia o chefe da guarda sangrenta, e mesmo assim não o olhava. Dava ordens de sua poltrona de espaldar alto, virada para o fogo, sem nunca encarar o subalterno.
Alicia catava morangos ligeiramente afastada da vila, onde estavam os frutos mais tenros, na borda da mata espessa. Ouviu os cascos dos cavalos martelando as pedras da estrada, e viu ao longe as capas negras dos soldados ondulando como bandeiras ao vento.
Não lhes fazia mal, não fisicamente, pelo menos. Apenas gostava de escraviza-las e aterroriza-las. Fazi-as arrumar o castelo, cozinhas parcas refeições, arar a terra e fazer a colheita, cuidar dos animais e das plantas, limpar os arreios e manter a ordem. Moças jovens, mulheres esturricadas, senhoras respeitáveis, velhas corcundas, não havia preconceito. Não eram muitas, e eram sequestradas aos poucos da vila, para que o terror crescesse aos poucos, estrangulando lentamente. Algumas escapavam, completamente exautas e atormentadas, e algumas eram libertas, por serem completamente inúteis. Voltavam magras e meio cegas da escuridão do castelo, e demoravam a se readaptar. No entanto, nenhuma sequer tinha visto o rosto do castelão e vivido para contar a história.
Não mostrava a face, era um príncipe das trevas, como dramaticamente gostava de se auto denominar. Não tinha um exército, apenas uma gurada violenta e fiel, que sequetrava as mulheres e protegia o castelo. Fora a guarda e as escravas sequestradas, seus empregados, era sozinho no mundo. Não via ninguém e se mantinha trancado no alto da torre, sendo alimentado por uma empregada velha que deixava a bandeija e depois ia embora, sem lhe ver. Gostava de se lacrar no alto da torre, em seus aposentos, onde só recebia o chefe da guarda sangrenta, e mesmo assim não o olhava. Dava ordens de sua poltrona de espaldar alto, virada para o fogo, sem nunca encarar o subalterno.
Alicia catava morangos ligeiramente afastada da vila, onde estavam os frutos mais tenros, na borda da mata espessa. Ouviu os cascos dos cavalos martelando as pedras da estrada, e viu ao longe as capas negras dos soldados ondulando como bandeiras ao vento.
quarta-feira, 25 de julho de 2012
Tinha olhos cor de areia, como as sereias do seu tempo. Seu beijo tinha hálito de algo forte, como pimenta ou canela, e deixava a boca pulsando por mais. Era dessas de cabelo negro e denso como a noite, com os fios sedosos de escuridão roçando a pele de mel. Nada tinha de anjo ideal. Não possuia uma par de asas de rapina nas omoplatas angulosas, nem vestia uma túnica de seda branca, nem era rodeada por uma aura de luz dourada. Mesmo assim era um anjo, e ninguém duvidava. Aparecia apenas quando queria, e apenas para os homens que desejava. Sabiam que não era uma sereia pois seu cheiro não era de mar e sal, mas sim um cheiro pesado, cheiro de verão, que anunciava sua presença muito antes de poder ser vista.
Era sereia dos céus, responsável por levar os homens à loucura. Jamais aparecia a homens solteiros, e muitos se casavam apenas para ver sua figura de serpente se insinuar por entre seus sonhos. Era real, como todos as que a tinham visto juravam. Podiam descrever com ardente riqueza de detalhes o gosto agridoce de sua pele de veludo, o som turvo de sua voz de ninfa, a textura de seus seios de odalisca, os lábios da cor de hibiscos no verão, o nirvana apocalíptico de um gozo ao seu lado. Um tinha em casa uma mecha de seus cabelos, e um outro uma pulseira de prata que ela havia esquecido em uma de suas visitas. Um outro tinha até mesmo uma pedaço de seda branquíssimo que, segundo els, vestia sua spartes íntimas antes que ela se despisse para ele. Era hetérea e sensual como nenhuma outra, era incandescente e aflita, aquela mulher que só aparecia para homens casados de Baía da Traição. Tinha o corpo todo de curvas, sinuoso como um rio, dançando num ritmo de selvageria que só ela e seu amante sentiam.
Chamavam-na Nirana por seus olhos de ninfa. As mulheres casadas usavam os lençóis manchados de virtude da noite de núpcias para proteger a casa, a única arma que parecia ter efeito sobre a estranha entidade. Mas os maridos mais imprudentes ousavam queimar tais amuletos, ou simplesmente lava-los em água quente para que perdessem sua eficácia. A visita de Nirana, deusa informal de Baía da Traição, era esperada ansiosamente por todos os homens. Aparecia em qualquer hora, e em qualquer lugar. Já havia sido vista nua lavando os cabelos no mar iluminada pela luz da lua, e também cantarolando com sua voz de sereia sentada sobre o muro de casas respeitáveis sob pleno sol do meio dia.
Desaparecia assim que se satisfazia em sua lascivia infinita, e deixava os homens com uma exaustão de escravo que era mais um das provas de sua existência. Era meio mulher, meio deusa e também meio bicho, essa santa pornográfica da cidadezinha minúscula. As vezes também aparecia para as mulheres traídas, beijando seus corpos e fazendo-as gritar como seus maridos jamais conseguiriam, mas essas visitas eram secretíssimas, e nenhuma senhora de respeito comentava sobre elas, apesar de ansia-las com falso recato.
Alguns diziam que Nirana era a própira alma da cidadezinha, um sopro de vida existente dês de a época dos colonozadores brancos como sal. Era a vinguança dos potiguaras, pois dizia-se aparecer para os franceses para matá-los durante o ato sexual. Mas ela perdera sua sede de vingança (embora não sua ninfomania), e continuava aparacendo para os homens casados, bela e impávida, com o fim único de morrer de amores por uma noite, deixando para trás um rastro de corações partidos. Não havia dúvida, no entanto, que era a mais bela dentre as mulheres e as sereias, e também de que era real.
A prova inconstetável de que era real veio numa manhã quente de setembro, quando o mar se debatia numa ressaca de morte. O sol ainda estava pálido, e as empregadas acordavam para bater o leite e colher os ovos, e o senhores menos recatados voltavam dos bordéis ainda meio ébrios de álcool e prazer. Foi um desses peregrinos da alvorada quem primeiro viu o corpo. Bem ali, no meio da pracinha de pavimento cor de creme e lampiões vitorianios, os únicos da cidade, ele viu o corpo. Ele se adiantou despreocupado, pensando tratar-se de algum bêbado adormecido, o que não era incomum.
Foi nesse momento que o sol nasceu de fato, lançando impiedoso seus raios sobre a pracinha da Báia da Traição. Foi nesse momento que o coronel Castelo viu, deitada sobre um charco de sangue negro, a mais misteriosa das criaturas entre o céu e a terra, a deusa informal da cidade, morta sob o céu límpido. Coronel Castelo a reconheceu no ato, seus cabelos de escuridão, sua pele de açúcar queimado, o cheiro pesado de verão e de pecado que a circundavam e que começava a empestar o ar com sua lasciva pecaminosa. Tomou-a no braços, inconsolado, manchando sua nobre casaca com sangue de anjo, sentindo o corpo ainda quente da divindade no colo. Chorou de amores, pois Nirana era senhora de seu coração, como também era senhora inconstestável no coração de muitos dos homens da cidade. Chorou o seu regaço, lamentou tão alto a perda da santa que acabou por acordar a cidade inteira, que se reuniu estupefata em volta da praça ainda nas camisolas de dormir.
Ninguém acreditou, e no entanto a prova estava diante de seus olhos. A ninfa da Baía, divindade sem idade que aparecia aos homens casados desde que a cidade fora fundada, estava ali, assassinada a sangue frio, coberta no próprio sangue, jogada no chão da praça, como uma pessoa comum. Todos os homens choravam, num espetáculo único, como se derrepente tivessem se tornados viúvos de uma mulher só. Todos reconheciam a mulher, e não havia dúvidas de sua identidade.
Era sereia dos céus, responsável por levar os homens à loucura. Jamais aparecia a homens solteiros, e muitos se casavam apenas para ver sua figura de serpente se insinuar por entre seus sonhos. Era real, como todos as que a tinham visto juravam. Podiam descrever com ardente riqueza de detalhes o gosto agridoce de sua pele de veludo, o som turvo de sua voz de ninfa, a textura de seus seios de odalisca, os lábios da cor de hibiscos no verão, o nirvana apocalíptico de um gozo ao seu lado. Um tinha em casa uma mecha de seus cabelos, e um outro uma pulseira de prata que ela havia esquecido em uma de suas visitas. Um outro tinha até mesmo uma pedaço de seda branquíssimo que, segundo els, vestia sua spartes íntimas antes que ela se despisse para ele. Era hetérea e sensual como nenhuma outra, era incandescente e aflita, aquela mulher que só aparecia para homens casados de Baía da Traição. Tinha o corpo todo de curvas, sinuoso como um rio, dançando num ritmo de selvageria que só ela e seu amante sentiam.
Chamavam-na Nirana por seus olhos de ninfa. As mulheres casadas usavam os lençóis manchados de virtude da noite de núpcias para proteger a casa, a única arma que parecia ter efeito sobre a estranha entidade. Mas os maridos mais imprudentes ousavam queimar tais amuletos, ou simplesmente lava-los em água quente para que perdessem sua eficácia. A visita de Nirana, deusa informal de Baía da Traição, era esperada ansiosamente por todos os homens. Aparecia em qualquer hora, e em qualquer lugar. Já havia sido vista nua lavando os cabelos no mar iluminada pela luz da lua, e também cantarolando com sua voz de sereia sentada sobre o muro de casas respeitáveis sob pleno sol do meio dia.
Desaparecia assim que se satisfazia em sua lascivia infinita, e deixava os homens com uma exaustão de escravo que era mais um das provas de sua existência. Era meio mulher, meio deusa e também meio bicho, essa santa pornográfica da cidadezinha minúscula. As vezes também aparecia para as mulheres traídas, beijando seus corpos e fazendo-as gritar como seus maridos jamais conseguiriam, mas essas visitas eram secretíssimas, e nenhuma senhora de respeito comentava sobre elas, apesar de ansia-las com falso recato.
Alguns diziam que Nirana era a própira alma da cidadezinha, um sopro de vida existente dês de a época dos colonozadores brancos como sal. Era a vinguança dos potiguaras, pois dizia-se aparecer para os franceses para matá-los durante o ato sexual. Mas ela perdera sua sede de vingança (embora não sua ninfomania), e continuava aparacendo para os homens casados, bela e impávida, com o fim único de morrer de amores por uma noite, deixando para trás um rastro de corações partidos. Não havia dúvida, no entanto, que era a mais bela dentre as mulheres e as sereias, e também de que era real.
A prova inconstetável de que era real veio numa manhã quente de setembro, quando o mar se debatia numa ressaca de morte. O sol ainda estava pálido, e as empregadas acordavam para bater o leite e colher os ovos, e o senhores menos recatados voltavam dos bordéis ainda meio ébrios de álcool e prazer. Foi um desses peregrinos da alvorada quem primeiro viu o corpo. Bem ali, no meio da pracinha de pavimento cor de creme e lampiões vitorianios, os únicos da cidade, ele viu o corpo. Ele se adiantou despreocupado, pensando tratar-se de algum bêbado adormecido, o que não era incomum.
Foi nesse momento que o sol nasceu de fato, lançando impiedoso seus raios sobre a pracinha da Báia da Traição. Foi nesse momento que o coronel Castelo viu, deitada sobre um charco de sangue negro, a mais misteriosa das criaturas entre o céu e a terra, a deusa informal da cidade, morta sob o céu límpido. Coronel Castelo a reconheceu no ato, seus cabelos de escuridão, sua pele de açúcar queimado, o cheiro pesado de verão e de pecado que a circundavam e que começava a empestar o ar com sua lasciva pecaminosa. Tomou-a no braços, inconsolado, manchando sua nobre casaca com sangue de anjo, sentindo o corpo ainda quente da divindade no colo. Chorou de amores, pois Nirana era senhora de seu coração, como também era senhora inconstestável no coração de muitos dos homens da cidade. Chorou o seu regaço, lamentou tão alto a perda da santa que acabou por acordar a cidade inteira, que se reuniu estupefata em volta da praça ainda nas camisolas de dormir.
Ninguém acreditou, e no entanto a prova estava diante de seus olhos. A ninfa da Baía, divindade sem idade que aparecia aos homens casados desde que a cidade fora fundada, estava ali, assassinada a sangue frio, coberta no próprio sangue, jogada no chão da praça, como uma pessoa comum. Todos os homens choravam, num espetáculo único, como se derrepente tivessem se tornados viúvos de uma mulher só. Todos reconheciam a mulher, e não havia dúvidas de sua identidade.
terça-feira, 24 de julho de 2012
Apertou o anel com força entre seus dedos alvos. Apertou com tanta força que as esmeraldas lapidadas se encravaram em sua pele , fazendo escorrer um fio de sangue que pingou no carpete. A dor só a fez apertar a joia com mais força. Queria esconder a peça sob sua pele, num lugar que só ela poderia encontrar. Porém quando o fio de sangue se transformou num fino regaço entre seus dedos feridos, ela o largou esquecido no chão, com o ouro manchado de vermelho vivo. Na palma da mão a marca dos espinhos estava escondida num espelho de sangue.
quarta-feira, 4 de julho de 2012
A mulher do coronel
-Casar?
Coronel Castelo, para a surpresa de todos, se encontrava prostrado na cama de jacarandá, arquejando num soluço de morte, suando frio e enrolado em mantas de lã, em pleno fogo da Baía da Traição. Rodeavam-no o reverendo e o jovem paroquiano, sua esposa num ninho de chales e chapéu europeu, além dos dois filhos, a mais velha, uma beata carola com quarenta anos mas que se vestia como se estivesse no auge dos setenta, e o filho mais moço, o futuro coronel de pequena cidade de Baía da Traição.
-Sim meu filho, casar. Não vou bater as botas até ter visto até ter visto o senhor com uma esposa respeitável, afinal os coronéis não hão de respeitar um coronel solteiro, que há de ser baitola.
O jovem Antônio se exasperou, torcendo a expressão. De baitola não tinha nada, amava as mulheres, todas as musas mariposas da noite, que de dia escondiam a pele da opalescencia do sol. Amava suas dracenas inconstantes (ah, um inconstante...), seus amores de momento, e então a paz austral de seu quarto, sem as lamúrias características das esposas honestas.
Não desejava se casar e contrair, além dos deveres de macho, os deveres do matrimônio. Sabia, porém, ser impossível fugir ao matrimônio, pois os filhos legítimos não vinham de outra maneira, e a irmã carola não ia parir nada de seu ventre seco.
-Sim, meu pai, me resigno diante de tua vontade.
-Pois bem. A noiva chega dentro de alguns dias, pois mandei enconmendá-la de Salvador, como é o costume. Aqui nessa cidade minúscula não há moça casadoira de família boa o bastante para fazer par à moça que escolhi. O pai é fazendeiro de açúcar, assim como nós, e bastante rico, como poucos o são.
A noite era escura, pois a lua era escassa no céu. Antônio, tão noivo, se afogava nos copos reluzentes de bebida lustrosa, sozinho entre as açucenas fluorescentes de setembro. O pai morria lentamente, mas sabia que de súbito o golpe fatal lhe levaria para longe. A noiva, no colo da embarcação que a trazia da distante Bahia, mirava a mesma lua magra, indecisa em seu destino solitário.
Coronel Castelo, para a surpresa de todos, se encontrava prostrado na cama de jacarandá, arquejando num soluço de morte, suando frio e enrolado em mantas de lã, em pleno fogo da Baía da Traição. Rodeavam-no o reverendo e o jovem paroquiano, sua esposa num ninho de chales e chapéu europeu, além dos dois filhos, a mais velha, uma beata carola com quarenta anos mas que se vestia como se estivesse no auge dos setenta, e o filho mais moço, o futuro coronel de pequena cidade de Baía da Traição.
-Sim meu filho, casar. Não vou bater as botas até ter visto até ter visto o senhor com uma esposa respeitável, afinal os coronéis não hão de respeitar um coronel solteiro, que há de ser baitola.
O jovem Antônio se exasperou, torcendo a expressão. De baitola não tinha nada, amava as mulheres, todas as musas mariposas da noite, que de dia escondiam a pele da opalescencia do sol. Amava suas dracenas inconstantes (ah, um inconstante...), seus amores de momento, e então a paz austral de seu quarto, sem as lamúrias características das esposas honestas.
Não desejava se casar e contrair, além dos deveres de macho, os deveres do matrimônio. Sabia, porém, ser impossível fugir ao matrimônio, pois os filhos legítimos não vinham de outra maneira, e a irmã carola não ia parir nada de seu ventre seco.
-Sim, meu pai, me resigno diante de tua vontade.
-Pois bem. A noiva chega dentro de alguns dias, pois mandei enconmendá-la de Salvador, como é o costume. Aqui nessa cidade minúscula não há moça casadoira de família boa o bastante para fazer par à moça que escolhi. O pai é fazendeiro de açúcar, assim como nós, e bastante rico, como poucos o são.
A noite era escura, pois a lua era escassa no céu. Antônio, tão noivo, se afogava nos copos reluzentes de bebida lustrosa, sozinho entre as açucenas fluorescentes de setembro. O pai morria lentamente, mas sabia que de súbito o golpe fatal lhe levaria para longe. A noiva, no colo da embarcação que a trazia da distante Bahia, mirava a mesma lua magra, indecisa em seu destino solitário.
sexta-feira, 15 de junho de 2012
Figura estreita e olhos elegantes cor de lápiz lazúli, como nas paletas de Tiziano. Cabelos cor de chocolate amargo, como o gosto de seus lábios abissais. Olhar felino, olhos de pantera famélica mimetizada nas sombras. Estava inquieta, porém segura. Toda de negro, com pingentes esmeralda reluzindo no colo. Alta e abundante como uma rainha abissínia, esperava em silêncio, fechada em seus olhos de pedra. Movia-se com silêncio e graça, hipnotizando acidentalmente todos que a miravam, como uma medusa de melenas sedosas. Ele a mirava incessante, com um olhar tão indecoroso quanto inconsciente. Pois ele havia perdido a consciência da própria existência, flutuando na essência vital que fluia dela como um rio paradisíaco, como um vento de asas de anjo. Capturado por sua majestade discreta, presa de sua influência suave porém poderosa, como a própria essência feminina. Ela parecia alheia ao poder que turvava os sentidos do recinto, e era exatamente nessa espontânea ignorância que jazia sua arma mais fatal.
sexta-feira, 1 de junho de 2012
O tempo se arrasta feito as flores que nascem no inverno, como gotas de sangue no tapete de neve. Ele estava sozinho, como sempre estivera. Sozinho entre os cravos, sozinho na neve. O frio que sentia, porém, não vinha da neve. Ele brotava do tutano de seus ossos, do seu espírito congelado. Era um frio glacial, da era gelada em que sua alma estava enterrada.
A pedra cinzenta estava coberta por uma fina camada de gelo, um espelho delicado por sobre a lápide de Lisa Tulley. O mármore estava enregelado, esquecido no alto da colina nevada. A data da morte remetia há mais de meio século, muito antes do nascimento dele. Porém o tempo jamais fora empecilho, suas vidas se cruzaram pelo espírito. Ele, o inverno tenebroso, ela o verão luminoso, uma explosão de luz ardente, com sangue de dragão correndo nas veias. Seu corpo morto estava sob a terra infértil, porém seu espírito inquieto surgia imapciente nas flores do inverno, rosas de um vermelho indecente, vulgares como seus olhos de obsidiana.
Ele era um jovem com o espírito de um ancião, com rosto de impúbere e a vivência de uma mago que atravessou intacto por entre os tempos, procurando-a entre as dimensões. Raramente a encontrava, seu espírito de ninfa habitanto tantas mulheres, porém todas com os mesmos indecentes olhos cor de obsidiana. Inspiravam a vulgaridade do verão, a luz que esfaqueia a pele, o calor que aprisiona o corpo e a mente.
Não era fácil encontrar as mulheres agraciadas por seu espírito, e ele passavam suas encarnações a procura-las, se perdendo entre vislumbres figuzes de uma deusa em corpo de mortal. Ela era efêmera, e o detalhe de um espírito imortal em nada alterava esse fato. Ela era uma brisa e não uma rocha de gelo, como ele. Ela era livre e apaixonada, violenta e mortal, impulsiva e imprevisível, assim como um desastre natural. Era feita de fogo, deixando rastros ainda fumegantes de sua passagem cadente pelo mundo dos mortais, desaparecedo em sua própria poeira de estrela.
Ele tocou as flores de veludo que desabrochavam no inverno, tão quentes como brasa, lentamente derretendo a neve acetinada à sua volta. Eram sua marca, os cravos vermelhos, o amor vivo. Desabrochavam onde estivessem, com a característica temperatura de fogo vulcânico. Passaram-se várias eternidades até que ele percebesse que amor vivo é diferente de eterno, bastante diferente. A eternidade em que ele se arrastava era bastante distinta da efemeridade fabulosa em que vivia sua musa.
Procurou no céu cor de grafite a marca de seus olhos opalescentes. Onda estava tal espírito errante, indomável por natureza, navegando no vento com seu coração no punho? Que humana abençoada iria nascer com a encarnãção de seu espírito? Eram criaturas sublimes, ímpares
A pedra cinzenta estava coberta por uma fina camada de gelo, um espelho delicado por sobre a lápide de Lisa Tulley. O mármore estava enregelado, esquecido no alto da colina nevada. A data da morte remetia há mais de meio século, muito antes do nascimento dele. Porém o tempo jamais fora empecilho, suas vidas se cruzaram pelo espírito. Ele, o inverno tenebroso, ela o verão luminoso, uma explosão de luz ardente, com sangue de dragão correndo nas veias. Seu corpo morto estava sob a terra infértil, porém seu espírito inquieto surgia imapciente nas flores do inverno, rosas de um vermelho indecente, vulgares como seus olhos de obsidiana.
Ele era um jovem com o espírito de um ancião, com rosto de impúbere e a vivência de uma mago que atravessou intacto por entre os tempos, procurando-a entre as dimensões. Raramente a encontrava, seu espírito de ninfa habitanto tantas mulheres, porém todas com os mesmos indecentes olhos cor de obsidiana. Inspiravam a vulgaridade do verão, a luz que esfaqueia a pele, o calor que aprisiona o corpo e a mente.
Não era fácil encontrar as mulheres agraciadas por seu espírito, e ele passavam suas encarnações a procura-las, se perdendo entre vislumbres figuzes de uma deusa em corpo de mortal. Ela era efêmera, e o detalhe de um espírito imortal em nada alterava esse fato. Ela era uma brisa e não uma rocha de gelo, como ele. Ela era livre e apaixonada, violenta e mortal, impulsiva e imprevisível, assim como um desastre natural. Era feita de fogo, deixando rastros ainda fumegantes de sua passagem cadente pelo mundo dos mortais, desaparecedo em sua própria poeira de estrela.
Ele tocou as flores de veludo que desabrochavam no inverno, tão quentes como brasa, lentamente derretendo a neve acetinada à sua volta. Eram sua marca, os cravos vermelhos, o amor vivo. Desabrochavam onde estivessem, com a característica temperatura de fogo vulcânico. Passaram-se várias eternidades até que ele percebesse que amor vivo é diferente de eterno, bastante diferente. A eternidade em que ele se arrastava era bastante distinta da efemeridade fabulosa em que vivia sua musa.
Procurou no céu cor de grafite a marca de seus olhos opalescentes. Onda estava tal espírito errante, indomável por natureza, navegando no vento com seu coração no punho? Que humana abençoada iria nascer com a encarnãção de seu espírito? Eram criaturas sublimes, ímpares
segunda-feira, 14 de maio de 2012
Os olhos imensos de beduíno estavam distantes quando ele me rejeitou. Suas pestanas de boneca russa varreram seu olhar para longe do meu corpo inerte. Quando as palavras deixaram sua boca elas me atingiram feito tiros entre os olhos, eu pude sentir a pólvora, a carne perfurada, queimada, dilacerada, estilhaçada, violentada. Os estilhaços hiperbólicos dos meus sentimentos encravaram na minha carne feito cacos de vidro, me esfaqueando por dentro. Meu próprio coração implodiu em pedaços de ferro ardente, se derretendo em chama branca, desfazendo cada pedaço da minha sanidade com marcas de fogo vulcânico. Senti-me tragar para um charco de escuridão e água podre, onde você me deixou jogada, nua e arrebentada. Minha alma se rasgava como uma toalha de seda, violentada pelas lâminas do desespero. Sentia uma abstinência de droga, a falta da toxina que suga cada resquício de dignidade, cada traço de sanidade, cada irrisório fio de razão, tudo por mais um trago do cheiro da sua pele, da textura do seu cabelo, do gosto da sua língua. Havia dor e havia fogo, havia sangue fresco e lágrimas de sal. Um corpo ferido e inerte, uma alma esfarrapada, um espírito agonizante, um coração suicida. Abandomei-me ao fel que brotava das minhas entranhas, à dor repugnantes das facadas, à ardência tóxica que me possuiu no minuto em que você me deixou. O ar se transformou em areia em meus pulmões, presa por grilhões de ferro incadescente que derretiam minha pele até os ossos. Cada pedaço da minha existência gemia em silêncio pela eutanásia desse estado decrépito em que você me abandonou, viva apenas para arquejar a insolência das dores que me violentavam, o puro gosto da sua ausência. O mundo todo era uma loja de cristal se estilhaçando pela fúria do desepero, a explosão destrutiva do meu terror de não te ver refletido em meus olhos. Tudo era dor, caco de cristal encravado fundo na alma pungente. Chafurdando em um pântano escuro de sangue e desespero, incapaz de se manter de pé num terreno movediço que era o mundo em que você não está.
segunda-feira, 9 de abril de 2012
Anette estava deitada no divã de camurça vinho, de olhos fechados, prestando atenção no barulho que a brisa fazia ao invadir a imensa janela de vitrais da biblioteca. Sentia com o deleite o vestido de noiva de seda marfim se espalhar fartamente pelo sofa e pelo tapete persa branco puríssimo, roçando em sua pele com a delicadez lasciva de um amante. Os cabelos de um loiro opalescente ondulavam com a força de um desastre natural, reluzindo das almofadas até o chão, perto da tiara de ouro decorada com orquídeas nupciais esquecida a um canto. Ela suspirava divertida, bebendo um cálice de estanho até a boca de algum caríssimo vinho galês. Certamente suas intenções não eram das melhores.
-Anette.
Carole entrou na sala, arrastando seu hábito de monja cinza escuro, com abas nas laterais na cabeça e sapatos de brim horrendos. Anette sempre detestara os tais sapatos, com grossas meias de lã que transpiravam castidade.
-Você fugiu.
O olhar da sacristã era terrível. Anette analisou sua expressão. A conhecia dês de que tinha cinco anos, quando a monja tinha sido transferida para a paróquia de Castle Lane, e agora, catorze anos depois, achava-a completamente idêntica, com o mesmo imensurável número de rugas na pele parda e os mesmos velhos olhos de aço negro de sempre.
- Simplesmente não tive vontade de comparecer à igreja...
Levantou-se do sofá envolta em uma nuvem de seda, os implacáveis cabelos acetinados envolvendo a pele de alabastro, parecia um anjo diabólico. Entornou o resto do vinho com sofreguidão, fazendo seus olhos castanhos brilharem de demência. Não havia força no mundo capaz de submeter a vontade de uma menina mimada e infeliz.
-Seu pai está furioso. Não foi fácil conseguir o contrato nupcial com Lorde Ambarís, e você seria duquesa da Salamanca. Agora ele está furioso, e não há dinheiro no mundo que pague a humilhação, nem mesmo o do seu pai.
Anette não poderia ligar menos. Lorde Ambarís era dez anos mais velho, com uma verdadeira paixão pelos cavalos de seu haras, dos mais famosos da Europa. Anette não queria morar na Espanha, disputando a atenção do marido com um bando de cavalos. Não tinha intenção nenhuma de deixar Castle Lane tão cedo. Seu simplesmente teria que explicar sua conduta e pagar o preço em ouro, como ocorria normalmente. Jamais dava muita atenção a ela, deixava que Carole assumisse o papel de responsável.
-Seu pai está furioso, Anette. Como você conseguiu fugir da guarda? Você sabe que esse casamento já está planejado faz dois anos.
Anette sabia. Ela atravessou a vasta biblioteca, vestida do chão ao teto com as lombadas macias de couro dos livros, até a bandeja de vidro e madrepérola com a garrafa do vinho galês, já pela metade. Era uma das garrafas do contrabando com que seu pai lidava. A garrafa era elegante, forrada de couro por sobre o vidro esverdeado, e o vinho era suave e matador. Assim como a filha caçula da duquesa de Castle Lane.
Lembrava-se claramente do dia em que jogava xadrez com Carole na mesa sob o alambrado quando seu pai chegou acompanhado de Lorde Ambarís. Era um mouro alto, moreno e com olhos negros de aço semelhantes aos de carole em frieza e severidade. Usava botas de montaria e um chicote cumprido preso no cinto. A mediu como uma égua num leilão e a cumprimentou com frieza. Certamente gostou do que viu, uma menina na flor da juventude com cabelos loiros e pele fina, educada como uma madame e tendo como pai um dos lordes mais influentes da Inglaterra. Anette Lane era uma senhora perfeita para a casa de Ambarís. Pena que Anette Lane não concordava.
Anette deu um gole sôfrego na bebida. Uma gota do líquido escarlate escapou e escorreu por seu quiexo, manchando a pele alva. Carole suspirou. Anette lentamente se transformava em uma alcoolatra e Lorde Lane não se importava. Só se preocupava com o filho mais velho, com os cachorros de caça e a companhia de navegação, que gerava lucros inimagináveis por ano pelo monopólio do contrabando de vinho galês. Certamente o problema com o casamento da filha não o interessava minimamente.
Carole viu uma lágrima dançar nos orbes da menina. Havia feito todo tipo de bruxaria e loucura para chamar a atenção do pai. Sabia que seria castigada pelo incidente, porém algumas horas trancada num quarto não eram ameaça. Sentia-se prisioneira no palácio de Castle Lane, não podendo se aventurar além dos muros da propriedade.
-Anette.
Carole entrou na sala, arrastando seu hábito de monja cinza escuro, com abas nas laterais na cabeça e sapatos de brim horrendos. Anette sempre detestara os tais sapatos, com grossas meias de lã que transpiravam castidade.
-Você fugiu.
O olhar da sacristã era terrível. Anette analisou sua expressão. A conhecia dês de que tinha cinco anos, quando a monja tinha sido transferida para a paróquia de Castle Lane, e agora, catorze anos depois, achava-a completamente idêntica, com o mesmo imensurável número de rugas na pele parda e os mesmos velhos olhos de aço negro de sempre.
- Simplesmente não tive vontade de comparecer à igreja...
Levantou-se do sofá envolta em uma nuvem de seda, os implacáveis cabelos acetinados envolvendo a pele de alabastro, parecia um anjo diabólico. Entornou o resto do vinho com sofreguidão, fazendo seus olhos castanhos brilharem de demência. Não havia força no mundo capaz de submeter a vontade de uma menina mimada e infeliz.
-Seu pai está furioso. Não foi fácil conseguir o contrato nupcial com Lorde Ambarís, e você seria duquesa da Salamanca. Agora ele está furioso, e não há dinheiro no mundo que pague a humilhação, nem mesmo o do seu pai.
Anette não poderia ligar menos. Lorde Ambarís era dez anos mais velho, com uma verdadeira paixão pelos cavalos de seu haras, dos mais famosos da Europa. Anette não queria morar na Espanha, disputando a atenção do marido com um bando de cavalos. Não tinha intenção nenhuma de deixar Castle Lane tão cedo. Seu simplesmente teria que explicar sua conduta e pagar o preço em ouro, como ocorria normalmente. Jamais dava muita atenção a ela, deixava que Carole assumisse o papel de responsável.
-Seu pai está furioso, Anette. Como você conseguiu fugir da guarda? Você sabe que esse casamento já está planejado faz dois anos.
Anette sabia. Ela atravessou a vasta biblioteca, vestida do chão ao teto com as lombadas macias de couro dos livros, até a bandeja de vidro e madrepérola com a garrafa do vinho galês, já pela metade. Era uma das garrafas do contrabando com que seu pai lidava. A garrafa era elegante, forrada de couro por sobre o vidro esverdeado, e o vinho era suave e matador. Assim como a filha caçula da duquesa de Castle Lane.
Lembrava-se claramente do dia em que jogava xadrez com Carole na mesa sob o alambrado quando seu pai chegou acompanhado de Lorde Ambarís. Era um mouro alto, moreno e com olhos negros de aço semelhantes aos de carole em frieza e severidade. Usava botas de montaria e um chicote cumprido preso no cinto. A mediu como uma égua num leilão e a cumprimentou com frieza. Certamente gostou do que viu, uma menina na flor da juventude com cabelos loiros e pele fina, educada como uma madame e tendo como pai um dos lordes mais influentes da Inglaterra. Anette Lane era uma senhora perfeita para a casa de Ambarís. Pena que Anette Lane não concordava.
Anette deu um gole sôfrego na bebida. Uma gota do líquido escarlate escapou e escorreu por seu quiexo, manchando a pele alva. Carole suspirou. Anette lentamente se transformava em uma alcoolatra e Lorde Lane não se importava. Só se preocupava com o filho mais velho, com os cachorros de caça e a companhia de navegação, que gerava lucros inimagináveis por ano pelo monopólio do contrabando de vinho galês. Certamente o problema com o casamento da filha não o interessava minimamente.
Carole viu uma lágrima dançar nos orbes da menina. Havia feito todo tipo de bruxaria e loucura para chamar a atenção do pai. Sabia que seria castigada pelo incidente, porém algumas horas trancada num quarto não eram ameaça. Sentia-se prisioneira no palácio de Castle Lane, não podendo se aventurar além dos muros da propriedade.
terça-feira, 3 de abril de 2012
Deus, por favor, me ouça. Minha prece. Que o senhor Waldir fique bem. eu não quero ser responsável por um ferimento absurdo. Que seja um susto apenas. Por favor. Eu entendo por que o senhor colocou isso no meu caminho. Eu mereci. Agora pelo menos há menos uma motorista imprudente no mundo. Eu prometo,senhor, não cometer mais imprudências, senhor, nunca mais. Só, por favor, não deixe que o senhor Waldir sofra mais. Que não hajam mais complicações. Que ele volte a sua vida normal. Deus, eu não sabia que a vida podia ficar tão séria, mas não consigo imaginar algo mais sério que um ato seu que causa sofrimento a outrem, de maneira não intecional. Dinheiro não é o mais importante. Eu vou pagar os prejuizos pecuniários. Porém e os sofrimentos da alma? Por favor senhor. Eu agradeço muito que nada de mais grave tenha ocorrido, pois não sei se aguentaria ser a responsável direta por um crime. Não foi minha intenção, mas hoje sei que não faz diferença. Por favor senhor. Eu prometo ser sua fiel serva, senhor. Não cometerei mais imprudências. Senhor, não vou ferir mais as pessoas, prometo. Cure ele senhor. Proteja-o. E me proteja também de mim mesma, senhor. Me proteja do dano que posso causar aos outros. Me use como intrumento de ajuda, de altruísmo, senhor, não como fonte de sofrimento. Senhor, me ajude. Não me abandone. Por favor senhor, ouve minha prece. Eu sei que parece egoista. Uma consciência incapaz de conviver consigo mesma. Porém pense no senhor Waldir. Ele sofre também, sua mãe está internada. Uma pessoa com quem eu jamais me envolveria se não fosse uma imprudência. Por favor senhor, não me de uma divida que eu não posso pagar. Senhor, escuta minha prece. Parece pequeno, porém eu juro chamar para sempre minha mãe de senhora, se tudo correr bem. Por favor, senhor.
terça-feira, 27 de março de 2012
Morreu num quarto seco, desamparado, apenas ao lado da filha. O ar diáfano cheirava a orquídeas brancas, e por todo o resto da eternidade Amélie iria associar tal perfume com a presença da morte. Da janela, o mar era cor de esmeralda, iluminado pelas primeiras luzes da manha. Assim que o sol surgiu por entre as ondas, feito uma sereia, as duas velas na cabeceira se apagaram. Amélie sentiu uma corrente gelada abraçar seus ossos, e o calor da mão do pai se transformara em tremor. Durou apenas um segundo, e então tudo era paz novamente. A ferida não era de longe tão impressionante quanto fora ontem na rua, um olho de sangue seco por onde a bala entrara.
terça-feira, 20 de março de 2012
O centauro de alma gelada foi banhado pela luz do firmamento, que cristalina tingiu sua acetinada tez de metal. Havia dor e desespero em sua gélida existência, no limbo de sua carcaça imortal. As setas de pestilência eterna estavam encravadas em seu lombo, para sempre latejando e sangrando suas pústulas celestiais. As desencravava uma a uma, sentindo o sangue escorrer das feridas indo molhar seus cascos espelhados. Uma a uma ela as encaixava no arco de matador assassino, certeiro e potente, presente das estrelas por ocasião de seu nascimento. Uma a uma ele as disparava, lançando-as para além do firmamento, viajando por entre as órbitas dos planetas, indo cravar-se na terra, casa dos humanos. De seu trono entre as estrelas, o sofrido centauro era capaz de ver todos eles, seus pensamentos e ações. Era muito sensível aos corações partidos, aos amores proibidos, às paixões secretas e aos mistérios da luxúria.
segunda-feira, 19 de março de 2012
Não parecia divino. Ceratmente, parecia bastante mortal, quase comum. Ela teve até medo de pensar tal blasfêmia, mas era inevitável. Ele comia pão com linguiça e cebolas com café preto num café de esquina, vestindo uma jaqueta de couro surrada, botinas lambuzadas de lama e um jeans de lavagem original, que parecia ser ainda mais antigo que o couro da jaqueta. Tinha a pele queimada, meio toscana, e exalava um cheiro suave, que ela não podia decidir se eram uvas ou azeite. Comia sozinho, sem pressa, saboreando com cuidado o café amargo sem açúcar ou creme. Ela estava num café em frente, vendo-o pelo outro lado da ruela calçada de paralelepipedos, comendo por educação brioches e um pavoroso chá inglês. Mal prestava atenção no gosto da comida, o observava hipnotizada. Podia sentir o cheiro suave que chegava até ela, por que já o conhecia há mutos anos, talvez há muitas vidas. Via seus olhos árabes mirando o nada, o cabelo muito negro ondulando com suavidade na brisa matinal que acordava o transtevere, a rudeza de suas mãos manipulando os talheres de latão e a xícara lascada. Parecia humano, e não gerou surpresa em nenhum dos outros integrantes do café, nem mesmo na loura bonita que servia as mesas, o que lhe pareceu absurdo. Pagou a ela com notas amarrotadas, e deixou no pires mais algumas de gorjeta. A pele branca reluziu sob o sol assim que ele deixou a calçada, e os olhos tão negros reluziram na direção dela, mas apenas por um segundo. Sabia de cor seus olhos árabes, tão negros que era impossível divisar as pupilas. Ela tomou o resto amargo do chá, deixou algumas moedas sob o prato e tomou a rua com a clara intenção de segui-lo. Sentia o frescor de seu rastro, a fragrância tão peculiar de azeite ou de uvas, era impossível explicar como se confundiam.
quarta-feira, 14 de março de 2012
Castelo de areia
Era uma princesa num castelo de areia. Um reino salgado, da cor da pele dos anjos, erguido sobre muralhas que o mar destroçaria a golpes de maresia. Seu reino de sonha se erguia no dia, subindo feito mágica no lodo de areia molhada, coroado por mil algas de todos os mundos, com torres e cúpulas vigiados pelos olhos ardentes de uma sereia. E toda noite o mar o engolia semelhante maravilha com a indiferença de um titã, destruindo com seu maremoto os alicerces de um sonho. Era uma princesa dos mares, reinando num castelo de areia dourada. Assim era o sonho, a eterna ilusão sob o sol ardente, uma miragem de mil léguas, que iria durar por mais mil anos. Um amor que não se constrói sobre rocha viva há de durar como os castelos de areia das princesas da lenda. Era uma princesa de beleza insólita, suave e fulgurante como a luz, feita da estranha matéria iridescente de que são feitos os sonhos, os delírios e as miragens. Uma princesa que em seu mundo era realeza absoluta e solitária, fadada a eclipsar para sempre entre os caprichos da maré, morre afogada todos os dias para renascer imperatriz dos deuses novamente ao amanhecer. O destino impávido a fez rainha de um império errante que resplandecia nas areias de prata pelo tempo de um suspiro, até que a fúria das espumas transformasse tudo em apocalíptica lembrança de um sonho. Porém, mesmo o destino, em sua infinita malícia, era incapaz de prever o coração de uma mulher, como são também incapazes de prevê-lo todos os seres que o habitam. Não sabia ele que o coração das princesa da lenda são oceanos ainda mais inóspitos que os mares infinitos que banham a terra. A princesa, vivendo sua rotina maldita de fênix, morrenda afogada sob a luz das estrelas para renascer de manha em todo seu esplendor divino, acabou por apaixonar-se por sua perdição, como era o hábito das criaturas indóceis. Vivia em constante conflito, pois amava com força seu reino esplendoroso e lhe doia a lama vê-lo violado pela fúria das águas, porém amava também o esplendor do mar de cobre, o insensível titã que a afogava em sua própria dor e júbilo com o toque das águas iradas. A todo tempo estava dividida entre a fidelidade ao seu reino, onde morava seu espírito de realeza absoluta, e o amor que infectara sua alma com uma marca de fogo e gelo, a idolatria que sentia pela besta insensível que todos os dias vinha demolir seu mundo até o último grão de areia. Estava completamente à mercê da criatura apocalíptica, tão frágil quanto os muros de seu castelo aos encantos do oceano. Porém, era dolorosamente consciente que jamais conseguiria emocionar tal divindade, cujo coração gelado estava enterrado a mais de mil léguas submarinas, guardado pelas pavorosas criaturas sanguinárias que reinavam absolutas nas inóspitas fendas oceânicas. Essa consciência a feria fundo como navalhadas ardentes, ainda mais violentamente que quando o mar devorava as areias com sua ansiedade famélica, insensível aos destroços de sua natureza cataclísmica. A princesa sabia que estava fadada a viver até que o tempo parasse de correr com o coração asfixiado no mais destrutivo de todos os amores já vividos, que era capaz de todos os dias mata-la afogada em júbilo e então ressucita-la para que ela pudesse viver novamente as agruras dos amores ignorados. Porém, era tanta sua dignidade de realeza estropiada, num reino fadado a fracassar diariamente até o fim dos tempos, que acabou por comover o mar em sua fúria infinita e seu espiríto livre de titã divino. O tirânico oceano se viu apaixonado por uma criatura tão indócil e comovente, uma princesa que só existia na lenda e nos sonhos, fragil e etérea como a luz, que ele mesmo matava todos os dias ao destruir seu império de areia e prata. E mesmo assim, todos os dias, numa teimosia infinita de perseverança, o castelo emergia novamente de suas cinzas amargas para ressurgir fulgurante como outrora. O mar, que podia escolher entre as sereias de olhos de ouro e as deusas míticas que surgiam com a maresia, acabou enamorado pela princesa de eterna efemeridade. Não havia porém remédio possível. Sabia que jamais poderia deixar de destruir seu castelo com a fúria de suas marés incontroláveis, pois estava em sua natureza de cataclisma indócil. E também sabia que não poderia tragar a princesa para dentro de seus domínios, pois ela jamais abandonaria a realeza de seu castelo. Estavam fadados a viver esse amor impossível, com as barreiras intransponíveis da natureza se impondo entre eles. Inconsolado, o mar sabia que jamais poderia de deixar de destrir o mundo de sua amada todas as manhas, porém ao invés de reduzi-lo a nada, transformou os estilhaços vazios em conchas acetinadas, que ele espalhou pelas praias de todos os oceanos da terra. A cada vez que a maré subia para destroçar o frágil castelo de sua amada, ele eternizava cada um dos graos de areia em cacos de joia para vestir as areias de prata e embelezar o castelo quando ele surgisse novamente na maré baixa. Todas as milhões de conchas do universo, as gemas brilhantes do oceano que se semeavam opalescentes pelas areias da eternidade, ele oferceu à sua princesa de lenda. Ao ver a praia de seus domínio refulgindo de conchas, a princesa chorou de amores, pois mesmo que não pudesse viver seu amor, sabia que ele estava ali, por todas as conchas que se multiplicavam todos os dias nas areias míticas. E quando respingaram nas conchas, suas lágrimas cristalinas se transformaram em pérolas preciosas, que ela então ofereceu de presente a seu amada inconstante. Um amor de lenda que jamais pode ser vivido ou compreendido, mas tão real quanto as conchas e as pérolas que forram um sonho de eternidade.
sábado, 10 de março de 2012
essência
Eu rodei o mundo procurando a essência das pessoas. O que nos define, afinal? Essa pergunta me perseguiu por incontáveis séculos, e jamais pude a responder com clareza. O que há de absoluto, inegável, essencial, eterno em cada pessoa? O que as define, diferencia de maneira inviolável? A resposta mais óbvia, e também mais estúpida, é o nome. Sheakspeare já indagava, o que há num nome? A rosa, com nome diverso, teria então o mesmo perfume... Nomes são rótulos, são externos à essência, que se abriga no mais profundo âmago. Seria então a profissão? Os hobbies, os amigos, namorados, os sonhos, aspirações? Tudo isso é importante, alicerces da personalidades, sintomas da essência, porém não se correspondem. Por séculos procurei a própria essência, e, no entanto, só esbarrava em seus reflexos. Alegria, maldade, tristeza, candura, felicidade, euforia, loucura, ira, ódio, recalque, orgulho, inveja, são todos traços superficiais de algo que se encontra enterrado mais fundo, mais para além do alcance da mente, algo que lateja e emite tais sinais. Por fim, cheguei a algo que não poderia ser nada senão essência: a maneira das pessoas de amarem. Isso as define e diferencia, algo perene e absoluto, que dificilmente muda através das encarnações. A forma do amor em cada um é tão distinta e paradigmática que assim defino sua essência. Uns amam com paixão, outros com ironia. Uns amam em absoluto, outros relativamente, e esses jamais deixarão de ser infelizes. Alguns amam com paciência, sabedoria, e outros com loucura. Há os que amam com candura, e os que amam com violência. Há os que amam em segredo, e os que não demonstram que amam. Há, porém, os que amam com audácia, com preocupante estardalhaço. Os que amam com luxúria, os que amam com cobiça, os que amam com ternura. E então, no fim, descobri que há os que não amam. Esses inspiram-me terror, pois para mim é inconcebível a completa incapacidade de amar, mas ela existe. Todas as formas de amor são válidas, exceto aquelas que não são amor. Pois é impossível amar senão pessoas, amar coisas se torna apego, posse. Não há amor na posse, e quem acima de tudo possui não ama. Não amar. Tão irracional, tão impossível, e, no entanto, existente. Há na terra aqueles que não amam, e para esses não há cura.
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
água negra
A água negra era um colar gelado em seu pescoço alvo, puxando-a para baixo, para longe do sol que despontava no horizonte, por ironia exatamente atrás da capela , filtrando-se por entre a gigantesca cruz e a nas fendas do campanário. Feria com sua luz as colinas de grama verde, as copas das suaves árvores burguesas, as águas turvas da lagoa que se fechavam em seu corpo como garras. Ela se deixava abandonar convulsionada à força dessa abraço, consumindo-a por completo. A vida e suas passagens mundanas e monótonas não mais a interessavam. Afinal se ele estava morto, ela devia estar também, não havia muito sentido em um mundo onde o sorriso dele não existia.
O vestido ensopado puxava-a para o fundo, e ela já não dava pé. Sentia-se amordaçada pela própria tristeza, o desespero agudo que fechava suas narinas, e não a água gélida que a invadia sem receio. Jamais fora depressiva, amava a vida com o amor dos jovens iludidos, e jamais houve amargura em seus sonhos. Porém não houve golpe mais intenso que a felicidade ceifada em seu auge. O amor brutalmente arrasado com uma espada em chamas, espalhando o sangue pelo corpo inerte de um amor que fora seu próprio assassino. Havia sangue e trevas em tudo, nos retratos, na aliança dourada, no chalé de tijolinho que haviam comprado meses atrás pensando em uma vida nova.
Não havia mais volta. Deixou-se submergir, atada e inerte, pronta para reemcontra-lo no universo que fosse, pois iria deixar de procura-lo nas vidas que sucederiam. Viu apenas as copas das árvores como joias brilhantes ao sol se distanciando enquanto ela era tragada para a escuridão sem fim. E então não viu mais nada.
Sentiu que voava. Ouvia o sussurro das asas dançando com o vento, o cheiro etéreo da atmosfera pura, a terra se distanciando como num sonho. Seus olhos estavam cegos de luz, porém não precisava ver para constatar que estava fora do mundo, talvez vagando entre as estrelas. Estava livre do corpo da mente e do coração, apenas o espírito existia em si mesmo, a lembrança do amor era tudo o que carregava. E então entrou novamente nas trevas, num sono acariciado pelas penas de um anjo de luz que a carregava pacientemente para fora de si mesma, resgatando-a silenciosamente, mesmo que por um instante. E então não havia mais nada.
O cheiro de hospital sempre fora a única coisa capaz de enjoar seu estômago resistente. O cheiro de não ter cheiro, a assespsia artificial, tudo era um golpe capaz de revirar suas entranhas. Lentamente tudo isso foi acordando seus sentidos. Os olhos foram os últimos a se abrir, quando o cheiro já a havia violado, e o som de sussuros perfurado seus ouvidos.
Amanda!! Graças a deus você acordou. Faz dois dias que você só dorme...
Mãe?
Não fazia sentido. Lembrava do lago, do vestido de contas a puxando para o fundo como uma âncora de chumbo, mas acima de tudo lembrava de voar por sobre as estrelas no colo de um anjo, para longe da vida, da morte, da existência. O despero lhe fechou a glote de um golpe: Ele estava morto. Ela não.
Ficamos tão preocupadas quando você desmaiou no meio da igreja, parecia que tinha batido a cabeça, foi tão súbito... Certamente ele não precisava morrer assim, não é mesmo?
Tudo girava cada vez menos lentamente. A letargia que outrora lhe nebulava os sentidos agora aguçava seus intintos. Vira o lago, sentira com a própria alma a frieza de suas profundezas, era capaz de sentir os ossos trepidando em desespero com a mera lembrança das águas negras, como o coração congelado de uma besta. Era palpável a agonia em suas entranhas, como se ainda se encontrassem alagadas no inferno palustre de onde não tinha ideia de como tinha saido. Era impossível que seu coração lhe induzisse o delírio de um suicídio apenas para reconforta-lhe com a lembrança de que ele estaria lá, a espernado com serenidade do outro lado da morte.
Onde, onde está a água?
Sua mãe respondeu ao sussurrar incoerente com um suave pestanejar compreensivo, suas cálidas mãos de mãe envolvendo as suas em um calor quase insuportável. Estou aqui, querida, daqui não sairei. Não há água alguma para te amendrontar. Era incoerente. Devia estar agora submersa em seu túmulo aquático, levando para deitar-se em seu leito todo o esplendor fervoroso de uma noiva em seu auge. Uma noiva enclausurada na tumba opaca de suas lágrimas.
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