quarta-feira, 14 de março de 2012
Castelo de areia
Era uma princesa num castelo de areia. Um reino salgado, da cor da pele dos anjos, erguido sobre muralhas que o mar destroçaria a golpes de maresia. Seu reino de sonha se erguia no dia, subindo feito mágica no lodo de areia molhada, coroado por mil algas de todos os mundos, com torres e cúpulas vigiados pelos olhos ardentes de uma sereia. E toda noite o mar o engolia semelhante maravilha com a indiferença de um titã, destruindo com seu maremoto os alicerces de um sonho. Era uma princesa dos mares, reinando num castelo de areia dourada. Assim era o sonho, a eterna ilusão sob o sol ardente, uma miragem de mil léguas, que iria durar por mais mil anos. Um amor que não se constrói sobre rocha viva há de durar como os castelos de areia das princesas da lenda. Era uma princesa de beleza insólita, suave e fulgurante como a luz, feita da estranha matéria iridescente de que são feitos os sonhos, os delírios e as miragens. Uma princesa que em seu mundo era realeza absoluta e solitária, fadada a eclipsar para sempre entre os caprichos da maré, morre afogada todos os dias para renascer imperatriz dos deuses novamente ao amanhecer. O destino impávido a fez rainha de um império errante que resplandecia nas areias de prata pelo tempo de um suspiro, até que a fúria das espumas transformasse tudo em apocalíptica lembrança de um sonho. Porém, mesmo o destino, em sua infinita malícia, era incapaz de prever o coração de uma mulher, como são também incapazes de prevê-lo todos os seres que o habitam. Não sabia ele que o coração das princesa da lenda são oceanos ainda mais inóspitos que os mares infinitos que banham a terra. A princesa, vivendo sua rotina maldita de fênix, morrenda afogada sob a luz das estrelas para renascer de manha em todo seu esplendor divino, acabou por apaixonar-se por sua perdição, como era o hábito das criaturas indóceis. Vivia em constante conflito, pois amava com força seu reino esplendoroso e lhe doia a lama vê-lo violado pela fúria das águas, porém amava também o esplendor do mar de cobre, o insensível titã que a afogava em sua própria dor e júbilo com o toque das águas iradas. A todo tempo estava dividida entre a fidelidade ao seu reino, onde morava seu espírito de realeza absoluta, e o amor que infectara sua alma com uma marca de fogo e gelo, a idolatria que sentia pela besta insensível que todos os dias vinha demolir seu mundo até o último grão de areia. Estava completamente à mercê da criatura apocalíptica, tão frágil quanto os muros de seu castelo aos encantos do oceano. Porém, era dolorosamente consciente que jamais conseguiria emocionar tal divindade, cujo coração gelado estava enterrado a mais de mil léguas submarinas, guardado pelas pavorosas criaturas sanguinárias que reinavam absolutas nas inóspitas fendas oceânicas. Essa consciência a feria fundo como navalhadas ardentes, ainda mais violentamente que quando o mar devorava as areias com sua ansiedade famélica, insensível aos destroços de sua natureza cataclísmica. A princesa sabia que estava fadada a viver até que o tempo parasse de correr com o coração asfixiado no mais destrutivo de todos os amores já vividos, que era capaz de todos os dias mata-la afogada em júbilo e então ressucita-la para que ela pudesse viver novamente as agruras dos amores ignorados. Porém, era tanta sua dignidade de realeza estropiada, num reino fadado a fracassar diariamente até o fim dos tempos, que acabou por comover o mar em sua fúria infinita e seu espiríto livre de titã divino. O tirânico oceano se viu apaixonado por uma criatura tão indócil e comovente, uma princesa que só existia na lenda e nos sonhos, fragil e etérea como a luz, que ele mesmo matava todos os dias ao destruir seu império de areia e prata. E mesmo assim, todos os dias, numa teimosia infinita de perseverança, o castelo emergia novamente de suas cinzas amargas para ressurgir fulgurante como outrora. O mar, que podia escolher entre as sereias de olhos de ouro e as deusas míticas que surgiam com a maresia, acabou enamorado pela princesa de eterna efemeridade. Não havia porém remédio possível. Sabia que jamais poderia deixar de destruir seu castelo com a fúria de suas marés incontroláveis, pois estava em sua natureza de cataclisma indócil. E também sabia que não poderia tragar a princesa para dentro de seus domínios, pois ela jamais abandonaria a realeza de seu castelo. Estavam fadados a viver esse amor impossível, com as barreiras intransponíveis da natureza se impondo entre eles. Inconsolado, o mar sabia que jamais poderia de deixar de destrir o mundo de sua amada todas as manhas, porém ao invés de reduzi-lo a nada, transformou os estilhaços vazios em conchas acetinadas, que ele espalhou pelas praias de todos os oceanos da terra. A cada vez que a maré subia para destroçar o frágil castelo de sua amada, ele eternizava cada um dos graos de areia em cacos de joia para vestir as areias de prata e embelezar o castelo quando ele surgisse novamente na maré baixa. Todas as milhões de conchas do universo, as gemas brilhantes do oceano que se semeavam opalescentes pelas areias da eternidade, ele oferceu à sua princesa de lenda. Ao ver a praia de seus domínio refulgindo de conchas, a princesa chorou de amores, pois mesmo que não pudesse viver seu amor, sabia que ele estava ali, por todas as conchas que se multiplicavam todos os dias nas areias míticas. E quando respingaram nas conchas, suas lágrimas cristalinas se transformaram em pérolas preciosas, que ela então ofereceu de presente a seu amada inconstante. Um amor de lenda que jamais pode ser vivido ou compreendido, mas tão real quanto as conchas e as pérolas que forram um sonho de eternidade.
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