Eu rodei o mundo procurando a essência das pessoas. O que nos define, afinal? Essa pergunta me perseguiu por incontáveis séculos, e jamais pude a responder com clareza. O que há de absoluto, inegável, essencial, eterno em cada pessoa? O que as define, diferencia de maneira inviolável? A resposta mais óbvia, e também mais estúpida, é o nome. Sheakspeare já indagava, o que há num nome? A rosa, com nome diverso, teria então o mesmo perfume... Nomes são rótulos, são externos à essência, que se abriga no mais profundo âmago. Seria então a profissão? Os hobbies, os amigos, namorados, os sonhos, aspirações? Tudo isso é importante, alicerces da personalidades, sintomas da essência, porém não se correspondem. Por séculos procurei a própria essência, e, no entanto, só esbarrava em seus reflexos. Alegria, maldade, tristeza, candura, felicidade, euforia, loucura, ira, ódio, recalque, orgulho, inveja, são todos traços superficiais de algo que se encontra enterrado mais fundo, mais para além do alcance da mente, algo que lateja e emite tais sinais. Por fim, cheguei a algo que não poderia ser nada senão essência: a maneira das pessoas de amarem. Isso as define e diferencia, algo perene e absoluto, que dificilmente muda através das encarnações. A forma do amor em cada um é tão distinta e paradigmática que assim defino sua essência. Uns amam com paixão, outros com ironia. Uns amam em absoluto, outros relativamente, e esses jamais deixarão de ser infelizes. Alguns amam com paciência, sabedoria, e outros com loucura. Há os que amam com candura, e os que amam com violência. Há os que amam em segredo, e os que não demonstram que amam. Há, porém, os que amam com audácia, com preocupante estardalhaço. Os que amam com luxúria, os que amam com cobiça, os que amam com ternura. E então, no fim, descobri que há os que não amam. Esses inspiram-me terror, pois para mim é inconcebível a completa incapacidade de amar, mas ela existe. Todas as formas de amor são válidas, exceto aquelas que não são amor. Pois é impossível amar senão pessoas, amar coisas se torna apego, posse. Não há amor na posse, e quem acima de tudo possui não ama. Não amar. Tão irracional, tão impossível, e, no entanto, existente. Há na terra aqueles que não amam, e para esses não há cura.
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