madreiza
segunda-feira, 14 de maio de 2012
Os olhos imensos de beduíno estavam distantes quando ele me rejeitou. Suas pestanas de boneca russa varreram seu olhar para longe do meu corpo inerte. Quando as palavras deixaram sua boca elas me atingiram feito tiros entre os olhos, eu pude sentir a pólvora, a carne perfurada, queimada, dilacerada, estilhaçada, violentada. Os estilhaços hiperbólicos dos meus sentimentos encravaram na minha carne feito cacos de vidro, me esfaqueando por dentro. Meu próprio coração implodiu em pedaços de ferro ardente, se derretendo em chama branca, desfazendo cada pedaço da minha sanidade com marcas de fogo vulcânico. Senti-me tragar para um charco de escuridão e água podre, onde você me deixou jogada, nua e arrebentada. Minha alma se rasgava como uma toalha de seda, violentada pelas lâminas do desespero. Sentia uma abstinência de droga, a falta da toxina que suga cada resquício de dignidade, cada traço de sanidade, cada irrisório fio de razão, tudo por mais um trago do cheiro da sua pele, da textura do seu cabelo, do gosto da sua língua. Havia dor e havia fogo, havia sangue fresco e lágrimas de sal. Um corpo ferido e inerte, uma alma esfarrapada, um espírito agonizante, um coração suicida. Abandomei-me ao fel que brotava das minhas entranhas, à dor repugnantes das facadas, à ardência tóxica que me possuiu no minuto em que você me deixou. O ar se transformou em areia em meus pulmões, presa por grilhões de ferro incadescente que derretiam minha pele até os ossos. Cada pedaço da minha existência gemia em silêncio pela eutanásia desse estado decrépito em que você me abandonou, viva apenas para arquejar a insolência das dores que me violentavam, o puro gosto da sua ausência. O mundo todo era uma loja de cristal se estilhaçando pela fúria do desepero, a explosão destrutiva do meu terror de não te ver refletido em meus olhos. Tudo era dor, caco de cristal encravado fundo na alma pungente. Chafurdando em um pântano escuro de sangue e desespero, incapaz de se manter de pé num terreno movediço que era o mundo em que você não está.
segunda-feira, 9 de abril de 2012
Anette estava deitada no divã de camurça vinho, de olhos fechados, prestando atenção no barulho que a brisa fazia ao invadir a imensa janela de vitrais da biblioteca. Sentia com o deleite o vestido de noiva de seda marfim se espalhar fartamente pelo sofa e pelo tapete persa branco puríssimo, roçando em sua pele com a delicadez lasciva de um amante. Os cabelos de um loiro opalescente ondulavam com a força de um desastre natural, reluzindo das almofadas até o chão, perto da tiara de ouro decorada com orquídeas nupciais esquecida a um canto. Ela suspirava divertida, bebendo um cálice de estanho até a boca de algum caríssimo vinho galês. Certamente suas intenções não eram das melhores.
-Anette.
Carole entrou na sala, arrastando seu hábito de monja cinza escuro, com abas nas laterais na cabeça e sapatos de brim horrendos. Anette sempre detestara os tais sapatos, com grossas meias de lã que transpiravam castidade.
-Você fugiu.
O olhar da sacristã era terrível. Anette analisou sua expressão. A conhecia dês de que tinha cinco anos, quando a monja tinha sido transferida para a paróquia de Castle Lane, e agora, catorze anos depois, achava-a completamente idêntica, com o mesmo imensurável número de rugas na pele parda e os mesmos velhos olhos de aço negro de sempre.
- Simplesmente não tive vontade de comparecer à igreja...
Levantou-se do sofá envolta em uma nuvem de seda, os implacáveis cabelos acetinados envolvendo a pele de alabastro, parecia um anjo diabólico. Entornou o resto do vinho com sofreguidão, fazendo seus olhos castanhos brilharem de demência. Não havia força no mundo capaz de submeter a vontade de uma menina mimada e infeliz.
-Seu pai está furioso. Não foi fácil conseguir o contrato nupcial com Lorde Ambarís, e você seria duquesa da Salamanca. Agora ele está furioso, e não há dinheiro no mundo que pague a humilhação, nem mesmo o do seu pai.
Anette não poderia ligar menos. Lorde Ambarís era dez anos mais velho, com uma verdadeira paixão pelos cavalos de seu haras, dos mais famosos da Europa. Anette não queria morar na Espanha, disputando a atenção do marido com um bando de cavalos. Não tinha intenção nenhuma de deixar Castle Lane tão cedo. Seu simplesmente teria que explicar sua conduta e pagar o preço em ouro, como ocorria normalmente. Jamais dava muita atenção a ela, deixava que Carole assumisse o papel de responsável.
-Seu pai está furioso, Anette. Como você conseguiu fugir da guarda? Você sabe que esse casamento já está planejado faz dois anos.
Anette sabia. Ela atravessou a vasta biblioteca, vestida do chão ao teto com as lombadas macias de couro dos livros, até a bandeja de vidro e madrepérola com a garrafa do vinho galês, já pela metade. Era uma das garrafas do contrabando com que seu pai lidava. A garrafa era elegante, forrada de couro por sobre o vidro esverdeado, e o vinho era suave e matador. Assim como a filha caçula da duquesa de Castle Lane.
Lembrava-se claramente do dia em que jogava xadrez com Carole na mesa sob o alambrado quando seu pai chegou acompanhado de Lorde Ambarís. Era um mouro alto, moreno e com olhos negros de aço semelhantes aos de carole em frieza e severidade. Usava botas de montaria e um chicote cumprido preso no cinto. A mediu como uma égua num leilão e a cumprimentou com frieza. Certamente gostou do que viu, uma menina na flor da juventude com cabelos loiros e pele fina, educada como uma madame e tendo como pai um dos lordes mais influentes da Inglaterra. Anette Lane era uma senhora perfeita para a casa de Ambarís. Pena que Anette Lane não concordava.
Anette deu um gole sôfrego na bebida. Uma gota do líquido escarlate escapou e escorreu por seu quiexo, manchando a pele alva. Carole suspirou. Anette lentamente se transformava em uma alcoolatra e Lorde Lane não se importava. Só se preocupava com o filho mais velho, com os cachorros de caça e a companhia de navegação, que gerava lucros inimagináveis por ano pelo monopólio do contrabando de vinho galês. Certamente o problema com o casamento da filha não o interessava minimamente.
Carole viu uma lágrima dançar nos orbes da menina. Havia feito todo tipo de bruxaria e loucura para chamar a atenção do pai. Sabia que seria castigada pelo incidente, porém algumas horas trancada num quarto não eram ameaça. Sentia-se prisioneira no palácio de Castle Lane, não podendo se aventurar além dos muros da propriedade.
-Anette.
Carole entrou na sala, arrastando seu hábito de monja cinza escuro, com abas nas laterais na cabeça e sapatos de brim horrendos. Anette sempre detestara os tais sapatos, com grossas meias de lã que transpiravam castidade.
-Você fugiu.
O olhar da sacristã era terrível. Anette analisou sua expressão. A conhecia dês de que tinha cinco anos, quando a monja tinha sido transferida para a paróquia de Castle Lane, e agora, catorze anos depois, achava-a completamente idêntica, com o mesmo imensurável número de rugas na pele parda e os mesmos velhos olhos de aço negro de sempre.
- Simplesmente não tive vontade de comparecer à igreja...
Levantou-se do sofá envolta em uma nuvem de seda, os implacáveis cabelos acetinados envolvendo a pele de alabastro, parecia um anjo diabólico. Entornou o resto do vinho com sofreguidão, fazendo seus olhos castanhos brilharem de demência. Não havia força no mundo capaz de submeter a vontade de uma menina mimada e infeliz.
-Seu pai está furioso. Não foi fácil conseguir o contrato nupcial com Lorde Ambarís, e você seria duquesa da Salamanca. Agora ele está furioso, e não há dinheiro no mundo que pague a humilhação, nem mesmo o do seu pai.
Anette não poderia ligar menos. Lorde Ambarís era dez anos mais velho, com uma verdadeira paixão pelos cavalos de seu haras, dos mais famosos da Europa. Anette não queria morar na Espanha, disputando a atenção do marido com um bando de cavalos. Não tinha intenção nenhuma de deixar Castle Lane tão cedo. Seu simplesmente teria que explicar sua conduta e pagar o preço em ouro, como ocorria normalmente. Jamais dava muita atenção a ela, deixava que Carole assumisse o papel de responsável.
-Seu pai está furioso, Anette. Como você conseguiu fugir da guarda? Você sabe que esse casamento já está planejado faz dois anos.
Anette sabia. Ela atravessou a vasta biblioteca, vestida do chão ao teto com as lombadas macias de couro dos livros, até a bandeja de vidro e madrepérola com a garrafa do vinho galês, já pela metade. Era uma das garrafas do contrabando com que seu pai lidava. A garrafa era elegante, forrada de couro por sobre o vidro esverdeado, e o vinho era suave e matador. Assim como a filha caçula da duquesa de Castle Lane.
Lembrava-se claramente do dia em que jogava xadrez com Carole na mesa sob o alambrado quando seu pai chegou acompanhado de Lorde Ambarís. Era um mouro alto, moreno e com olhos negros de aço semelhantes aos de carole em frieza e severidade. Usava botas de montaria e um chicote cumprido preso no cinto. A mediu como uma égua num leilão e a cumprimentou com frieza. Certamente gostou do que viu, uma menina na flor da juventude com cabelos loiros e pele fina, educada como uma madame e tendo como pai um dos lordes mais influentes da Inglaterra. Anette Lane era uma senhora perfeita para a casa de Ambarís. Pena que Anette Lane não concordava.
Anette deu um gole sôfrego na bebida. Uma gota do líquido escarlate escapou e escorreu por seu quiexo, manchando a pele alva. Carole suspirou. Anette lentamente se transformava em uma alcoolatra e Lorde Lane não se importava. Só se preocupava com o filho mais velho, com os cachorros de caça e a companhia de navegação, que gerava lucros inimagináveis por ano pelo monopólio do contrabando de vinho galês. Certamente o problema com o casamento da filha não o interessava minimamente.
Carole viu uma lágrima dançar nos orbes da menina. Havia feito todo tipo de bruxaria e loucura para chamar a atenção do pai. Sabia que seria castigada pelo incidente, porém algumas horas trancada num quarto não eram ameaça. Sentia-se prisioneira no palácio de Castle Lane, não podendo se aventurar além dos muros da propriedade.
terça-feira, 3 de abril de 2012
Deus, por favor, me ouça. Minha prece. Que o senhor Waldir fique bem. eu não quero ser responsável por um ferimento absurdo. Que seja um susto apenas. Por favor. Eu entendo por que o senhor colocou isso no meu caminho. Eu mereci. Agora pelo menos há menos uma motorista imprudente no mundo. Eu prometo,senhor, não cometer mais imprudências, senhor, nunca mais. Só, por favor, não deixe que o senhor Waldir sofra mais. Que não hajam mais complicações. Que ele volte a sua vida normal. Deus, eu não sabia que a vida podia ficar tão séria, mas não consigo imaginar algo mais sério que um ato seu que causa sofrimento a outrem, de maneira não intecional. Dinheiro não é o mais importante. Eu vou pagar os prejuizos pecuniários. Porém e os sofrimentos da alma? Por favor senhor. Eu agradeço muito que nada de mais grave tenha ocorrido, pois não sei se aguentaria ser a responsável direta por um crime. Não foi minha intenção, mas hoje sei que não faz diferença. Por favor senhor. Eu prometo ser sua fiel serva, senhor. Não cometerei mais imprudências. Senhor, não vou ferir mais as pessoas, prometo. Cure ele senhor. Proteja-o. E me proteja também de mim mesma, senhor. Me proteja do dano que posso causar aos outros. Me use como intrumento de ajuda, de altruísmo, senhor, não como fonte de sofrimento. Senhor, me ajude. Não me abandone. Por favor senhor, ouve minha prece. Eu sei que parece egoista. Uma consciência incapaz de conviver consigo mesma. Porém pense no senhor Waldir. Ele sofre também, sua mãe está internada. Uma pessoa com quem eu jamais me envolveria se não fosse uma imprudência. Por favor senhor, não me de uma divida que eu não posso pagar. Senhor, escuta minha prece. Parece pequeno, porém eu juro chamar para sempre minha mãe de senhora, se tudo correr bem. Por favor, senhor.
terça-feira, 27 de março de 2012
Morreu num quarto seco, desamparado, apenas ao lado da filha. O ar diáfano cheirava a orquídeas brancas, e por todo o resto da eternidade Amélie iria associar tal perfume com a presença da morte. Da janela, o mar era cor de esmeralda, iluminado pelas primeiras luzes da manha. Assim que o sol surgiu por entre as ondas, feito uma sereia, as duas velas na cabeceira se apagaram. Amélie sentiu uma corrente gelada abraçar seus ossos, e o calor da mão do pai se transformara em tremor. Durou apenas um segundo, e então tudo era paz novamente. A ferida não era de longe tão impressionante quanto fora ontem na rua, um olho de sangue seco por onde a bala entrara.
terça-feira, 20 de março de 2012
O centauro de alma gelada foi banhado pela luz do firmamento, que cristalina tingiu sua acetinada tez de metal. Havia dor e desespero em sua gélida existência, no limbo de sua carcaça imortal. As setas de pestilência eterna estavam encravadas em seu lombo, para sempre latejando e sangrando suas pústulas celestiais. As desencravava uma a uma, sentindo o sangue escorrer das feridas indo molhar seus cascos espelhados. Uma a uma ela as encaixava no arco de matador assassino, certeiro e potente, presente das estrelas por ocasião de seu nascimento. Uma a uma ele as disparava, lançando-as para além do firmamento, viajando por entre as órbitas dos planetas, indo cravar-se na terra, casa dos humanos. De seu trono entre as estrelas, o sofrido centauro era capaz de ver todos eles, seus pensamentos e ações. Era muito sensível aos corações partidos, aos amores proibidos, às paixões secretas e aos mistérios da luxúria.
segunda-feira, 19 de março de 2012
Não parecia divino. Ceratmente, parecia bastante mortal, quase comum. Ela teve até medo de pensar tal blasfêmia, mas era inevitável. Ele comia pão com linguiça e cebolas com café preto num café de esquina, vestindo uma jaqueta de couro surrada, botinas lambuzadas de lama e um jeans de lavagem original, que parecia ser ainda mais antigo que o couro da jaqueta. Tinha a pele queimada, meio toscana, e exalava um cheiro suave, que ela não podia decidir se eram uvas ou azeite. Comia sozinho, sem pressa, saboreando com cuidado o café amargo sem açúcar ou creme. Ela estava num café em frente, vendo-o pelo outro lado da ruela calçada de paralelepipedos, comendo por educação brioches e um pavoroso chá inglês. Mal prestava atenção no gosto da comida, o observava hipnotizada. Podia sentir o cheiro suave que chegava até ela, por que já o conhecia há mutos anos, talvez há muitas vidas. Via seus olhos árabes mirando o nada, o cabelo muito negro ondulando com suavidade na brisa matinal que acordava o transtevere, a rudeza de suas mãos manipulando os talheres de latão e a xícara lascada. Parecia humano, e não gerou surpresa em nenhum dos outros integrantes do café, nem mesmo na loura bonita que servia as mesas, o que lhe pareceu absurdo. Pagou a ela com notas amarrotadas, e deixou no pires mais algumas de gorjeta. A pele branca reluziu sob o sol assim que ele deixou a calçada, e os olhos tão negros reluziram na direção dela, mas apenas por um segundo. Sabia de cor seus olhos árabes, tão negros que era impossível divisar as pupilas. Ela tomou o resto amargo do chá, deixou algumas moedas sob o prato e tomou a rua com a clara intenção de segui-lo. Sentia o frescor de seu rastro, a fragrância tão peculiar de azeite ou de uvas, era impossível explicar como se confundiam.
quarta-feira, 14 de março de 2012
Castelo de areia
Era uma princesa num castelo de areia. Um reino salgado, da cor da pele dos anjos, erguido sobre muralhas que o mar destroçaria a golpes de maresia. Seu reino de sonha se erguia no dia, subindo feito mágica no lodo de areia molhada, coroado por mil algas de todos os mundos, com torres e cúpulas vigiados pelos olhos ardentes de uma sereia. E toda noite o mar o engolia semelhante maravilha com a indiferença de um titã, destruindo com seu maremoto os alicerces de um sonho. Era uma princesa dos mares, reinando num castelo de areia dourada. Assim era o sonho, a eterna ilusão sob o sol ardente, uma miragem de mil léguas, que iria durar por mais mil anos. Um amor que não se constrói sobre rocha viva há de durar como os castelos de areia das princesas da lenda. Era uma princesa de beleza insólita, suave e fulgurante como a luz, feita da estranha matéria iridescente de que são feitos os sonhos, os delírios e as miragens. Uma princesa que em seu mundo era realeza absoluta e solitária, fadada a eclipsar para sempre entre os caprichos da maré, morre afogada todos os dias para renascer imperatriz dos deuses novamente ao amanhecer. O destino impávido a fez rainha de um império errante que resplandecia nas areias de prata pelo tempo de um suspiro, até que a fúria das espumas transformasse tudo em apocalíptica lembrança de um sonho. Porém, mesmo o destino, em sua infinita malícia, era incapaz de prever o coração de uma mulher, como são também incapazes de prevê-lo todos os seres que o habitam. Não sabia ele que o coração das princesa da lenda são oceanos ainda mais inóspitos que os mares infinitos que banham a terra. A princesa, vivendo sua rotina maldita de fênix, morrenda afogada sob a luz das estrelas para renascer de manha em todo seu esplendor divino, acabou por apaixonar-se por sua perdição, como era o hábito das criaturas indóceis. Vivia em constante conflito, pois amava com força seu reino esplendoroso e lhe doia a lama vê-lo violado pela fúria das águas, porém amava também o esplendor do mar de cobre, o insensível titã que a afogava em sua própria dor e júbilo com o toque das águas iradas. A todo tempo estava dividida entre a fidelidade ao seu reino, onde morava seu espírito de realeza absoluta, e o amor que infectara sua alma com uma marca de fogo e gelo, a idolatria que sentia pela besta insensível que todos os dias vinha demolir seu mundo até o último grão de areia. Estava completamente à mercê da criatura apocalíptica, tão frágil quanto os muros de seu castelo aos encantos do oceano. Porém, era dolorosamente consciente que jamais conseguiria emocionar tal divindade, cujo coração gelado estava enterrado a mais de mil léguas submarinas, guardado pelas pavorosas criaturas sanguinárias que reinavam absolutas nas inóspitas fendas oceânicas. Essa consciência a feria fundo como navalhadas ardentes, ainda mais violentamente que quando o mar devorava as areias com sua ansiedade famélica, insensível aos destroços de sua natureza cataclísmica. A princesa sabia que estava fadada a viver até que o tempo parasse de correr com o coração asfixiado no mais destrutivo de todos os amores já vividos, que era capaz de todos os dias mata-la afogada em júbilo e então ressucita-la para que ela pudesse viver novamente as agruras dos amores ignorados. Porém, era tanta sua dignidade de realeza estropiada, num reino fadado a fracassar diariamente até o fim dos tempos, que acabou por comover o mar em sua fúria infinita e seu espiríto livre de titã divino. O tirânico oceano se viu apaixonado por uma criatura tão indócil e comovente, uma princesa que só existia na lenda e nos sonhos, fragil e etérea como a luz, que ele mesmo matava todos os dias ao destruir seu império de areia e prata. E mesmo assim, todos os dias, numa teimosia infinita de perseverança, o castelo emergia novamente de suas cinzas amargas para ressurgir fulgurante como outrora. O mar, que podia escolher entre as sereias de olhos de ouro e as deusas míticas que surgiam com a maresia, acabou enamorado pela princesa de eterna efemeridade. Não havia porém remédio possível. Sabia que jamais poderia deixar de destruir seu castelo com a fúria de suas marés incontroláveis, pois estava em sua natureza de cataclisma indócil. E também sabia que não poderia tragar a princesa para dentro de seus domínios, pois ela jamais abandonaria a realeza de seu castelo. Estavam fadados a viver esse amor impossível, com as barreiras intransponíveis da natureza se impondo entre eles. Inconsolado, o mar sabia que jamais poderia de deixar de destrir o mundo de sua amada todas as manhas, porém ao invés de reduzi-lo a nada, transformou os estilhaços vazios em conchas acetinadas, que ele espalhou pelas praias de todos os oceanos da terra. A cada vez que a maré subia para destroçar o frágil castelo de sua amada, ele eternizava cada um dos graos de areia em cacos de joia para vestir as areias de prata e embelezar o castelo quando ele surgisse novamente na maré baixa. Todas as milhões de conchas do universo, as gemas brilhantes do oceano que se semeavam opalescentes pelas areias da eternidade, ele oferceu à sua princesa de lenda. Ao ver a praia de seus domínio refulgindo de conchas, a princesa chorou de amores, pois mesmo que não pudesse viver seu amor, sabia que ele estava ali, por todas as conchas que se multiplicavam todos os dias nas areias míticas. E quando respingaram nas conchas, suas lágrimas cristalinas se transformaram em pérolas preciosas, que ela então ofereceu de presente a seu amada inconstante. Um amor de lenda que jamais pode ser vivido ou compreendido, mas tão real quanto as conchas e as pérolas que forram um sonho de eternidade.
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