segunda-feira, 31 de outubro de 2011
sonata do fim do mundo
A sonata reverberou pelos mundos como uma tambor que anuncia a morte, e o silêncio que se seguiu foi ainda mais alto que seus acordes. A discrepante assepsia de suas tonalidades chocou a todos que a ouviram, em cada um dos universos em que ressoou. Havia brancura, desejo e loucura em sua harmonia pulsante, havia dor em sua musicalidade astuta. Um som que enche o peito, um som que ecoa na alma, a balada trovadora que ruge impávida pelos universos. A sinfonia hiperbólica do choro do amor e do ódio, essa música astuta produzida pelo sussuro de um piano negro como a morte, do lamentar agonizante de um violino alvejado. Não são palavras, jamais o foram em sua devassidão incoerente, o grito arquejante de um milhão de bem-te-vis, o sangue impuro que escorre de um campo oceânico de tulipas decapitadas. O mesmo sangue que mancha o mundo de cólera surda. O sol impávido que incendeia a meia noite dos tempos, essa música que antecede a paz e a guerra, o suave rumorejar das asas de rapina dos anjos que há muito bateram em retirada, é tudo o que nos resta. O amor, a morte, o silência e a música dançam na penunmbra, a espera da inanição a que os condenamos. É a luz que cega, outrora impávida e agora opaca, no fim dos tempos. Afogamos o mundo num oceano de lágrimas peroladas, a beleza e a dor que se abraçam sinceras, pois a dor é bela e a beleza, dolorida. E quando tudo se foi, as brasas quentes do apocalispe de fogo que consumiu as estrelas e os sonhos, quando tudo for chama e silêncio, ai sim restará a música que ecoará pelos tempos na liberdade mútua dos amantes, em tua sacrossantíssima plenitude. A música que ninguém ouve na consciência é a mais rara, mais pura, mais doce. É como espelho persa, esse veludo quente que alimenta as ilusões de um mundo partido, o fogo arquejante que ilumina feito lanterna a terra dos homens perdidos.
sexta-feira, 28 de outubro de 2011
Queria ser irresistível como a chuva . A chuva que desaba inviolável, intocável, onipresente, sacrossanta e maliciosa. Que é como fogo transparente que explode impávido no horizonte, acima de tudo irresistível como nenhum outro ser o é.
Queria ser irresistível como a chuva. Assim te afogava em meus olhos, preso para sempre na masmorra de minha alma. Minha alma é líquida, mas não é chuva. É espelho d'água onde você se banha, onde mora o seu reflexo. Mas não sou a chuva que te envolve, fere e guarda, não sou eu quem envolve teu corpo de maneira tão completa.
Se eu fosse chuva. Não haveria o medo e a dor, que a chuva desconhece. O medo que você vá embora, que me deixe para sempre. A dor que transpassa feito lâmina, que mata por dentro, que apodrece o coração e a mente, que invalida os ossos, o sangue e o espírito. A dor que é suicídio do peito, o medo que enaltece e sabota o amor. Ah como eu queria se chuva, sua própria prisão e morada de liberdade, seu alento e consolo. A beleza da chuva, cortina de prata que toca e transforma o mundo com sua inquebrável sutileza. Que chora em ti inviolável, seu eterno cativo, seu coração fiel.
Queria ser irresistível como a chuva. Assim te afogava em meus olhos, preso para sempre na masmorra de minha alma. Minha alma é líquida, mas não é chuva. É espelho d'água onde você se banha, onde mora o seu reflexo. Mas não sou a chuva que te envolve, fere e guarda, não sou eu quem envolve teu corpo de maneira tão completa.
Se eu fosse chuva. Não haveria o medo e a dor, que a chuva desconhece. O medo que você vá embora, que me deixe para sempre. A dor que transpassa feito lâmina, que mata por dentro, que apodrece o coração e a mente, que invalida os ossos, o sangue e o espírito. A dor que é suicídio do peito, o medo que enaltece e sabota o amor. Ah como eu queria se chuva, sua própria prisão e morada de liberdade, seu alento e consolo. A beleza da chuva, cortina de prata que toca e transforma o mundo com sua inquebrável sutileza. Que chora em ti inviolável, seu eterno cativo, seu coração fiel.
quinta-feira, 13 de outubro de 2011
Dizem que a loucura é o vício dos sofredores, o escape dos flagelados, o excesso dos degenerados. Comparam a loucura a uma simples substância, a uma efêmera sensação, tão passageira quanto ilusória. A loucura dos viciados não passa de vício, essa loucura forjada dos revoltados, dos sofredores, dos perdidos, que buscam alento em substâncias mundanas que não fazem mais que destruir e alienar, jamais esclarecer ou iluminar. A loucura de que falo, a loucura divina, dos artistas e dos gênios não deve ser anestesiada por nenhuma droga, é uma iluminação genuína que não precisa de intermediários para ser alcançada. A loucura é a droga natural humana, de que se alimentam os incompreendidos, os filhos da solidão e da razão. Não falo da razão ordinária e rasa da qual se alimenta a sociedade, mas uma razão mais profunda, uma razão que parte da essência humana, que não pode ser anestesiada ou curada pelas substâncias profanas que divertem os levianos.
A loucura de que falo é aquela dos homens que são deuses, e que por isso não podem ser confundidos com homens. A loucura da mente que é realmente lúcida, e que por isso se diferencia dos delírio coletivo de que vive a sociedade. Essa sociedade que ser acredita racional, a epítome da raça humana, mas que na verdade padece de tantos males que mal se mantém viva. A hipocrisia, a crueldade, a frieza, a crueza, o preconceito, o egoísmo, de tudo o isso a loucura se livra, e por isso é estigmatizada, marginalizada. A loucura que se afasta do delírio em que vivem os homens em sua natureza mesquinha, que existe em um plano diferente do mundano, é dessa loucura divina de que falo. Por ser distinta é incompreendida, talvez invejada. Sócrates, que jamais viveu neste mundo e não fez nada além de tentar ilumina-lo com sua sabedoria, foi assassinado pelos mesmos homens que se dizem sãos. Tantos outros loucos tiveram o mesmo destino. Chamam a loucura de doença, quando na verdade é apenas inspiraçao.
A medicina da loucura é a arte, a genialidade, o isolamento profético dos inspirados. Drogar os corpos não aprisiona a alma, que não é passível de anestesia. Internar os loucos jamais foi alento para as pessoas insanas, mas sim uma resposta à sociedade que desejava se ver livre daqueles que não se encaixavam em seus padrões mesquinhos. A loucura não é voluntária nem pode ser curada ou apaziguada, é uma inquietação da mente que recusa a se adaptar a quaisquer condições, sempre em busca do alimento divino de sua insanidade. O vicío de que fala, essa luxúria narcótica, esse desejo ilibado do ópio é doença do corpo e não iluminação da mente, como afirma. O ópio se irradia nos sentidos, nos instintos, e não nos pensamentos. A orgia descabida em que vivem os degenerados em sua fome de droga é consequência do mesmo descaso da sociedade para com os humanos em que se funda a loucura, mas possuem naturezas muito distintas. A loucura e o vício possuem o mesmo desejo, a distância das mesquinharias do homem domesticado, porém não podem ser confundidas, mesmo que as vezes, ou melhor dizendo frequentemente, se fundam de maneira indifereciàvel.
A loucura que você alude possuir não é mais que vício, rebelião e revolta, pois a verdadeira loucura não reconhece a si mesmo e tão pouco se vangloria. Seus sentimentos são nobres e sua causa é justa, pois a hipocrisia da sociedade tem o hábito de marginalizar os que ousam se desencaixar, porém não há nisso a presença da loucura. A loucura não precisa de subterfúgios para se manisfestar na mente humana, a loucura forjada ou induzida não passa de delírio, pois a loucura não é alcançada e sim plena, inata. A loucura transcende a mente, enquanto o vício não vai além das barreiras instintivas do corpo.
As palavras fluem de mim como um rio, em sua inexorável enxurrada, sem caminho e sem controle. Não foi uma coisa que eu escolhi, nasceu em mim, é metade de mim, me consome por inteiro, é a matéria da qual se constitue minha essência. Não poderia ser de outra forma, assim como a andorinha não deseja ser o mar, não desejo eu me ver livre desse vício, dessa obessessão que me consome e me alimenta. Minha atração é fatal para a arte escrita, e dela não posso me livrar. Assim como o pintor é apenas o mensageiro de suas cores, como a Prima Donna é mera escrava de sua voz, o escritor não é mais o corpo que abriga e expressa a alma de suas palavras.
Digo isso para explicar a irritante prolixidade com que meu discurso amorfo se desenvolve. Eu não tenho escolha, as palavras me hipnotizam. Mas você, leitor, possui liberdade de abandonar agora essas frases sem acalento, existindo em vão. Você possui escolha, e, admito, eu não o invejo por isso. A indecisão das horas duras é capaz de envenenar a mais doce das liberdades, e com os meus grilhões só me resta escrever. A liberdade condena, e eu, prisioneira das palavras, não tenho desejo algum de me libertar de meu cárcere.
A história contada aqui, agora, ainda não existe, ainda não está encarnada. Não é viva, não pulsa. Palavras têm vida própria, e escritores são apenas intermediários de sua sabedoria. Histórias têm vida, respiram, nascem e morrem, são seres complexos cujos mistérios cabe a nós desvendar. Essa em particular nasce agora em seu colo, nescessita de atenção e acalento, e como uma criança, responde ao amor ou ao ódio com ternura ou teimosia. O descaso com as palavras, como se bem sabe, têm proporções cataclismicas. Sempre temi essa força, inexorável e irregular, que não pode ser contida, um titã imbatível, porém com uma sutileza inigualável. Essa força que traga, que cura, que fere, mas que acima de tudo que transforma. Como o amor gera o carinho, e como o descaso gera o ódio, como um discurso pode inflamar um coração ou retardar uma turba, jamais pude completamente entender.
A maior mestra das palavras que jamais conheci foi minha mãe. Lembro-me bem de como cultuava os livros, uma lição que carrego intrínseca em meu espírito. Havia algum brilho quase religioso em seu ser quando ela se recolia em solidão, acariciando a lombada aveludada de algum dos inúmeros volumes de nossa casa. Foi desta época, me lembro bem, que me recordo de uma das mais cataclismicas memórias de minha vida.
Descendo de uma família indescritível, e para descrevê-la eu me afogaria em um tufão de adjetivos. Porém, existe um que a resume em toda a sua essência: Pesada. No sentido mais amplo da palavra, é assim que minha família existe aos meus olhos: pesada, uma rocha que resiste aos tempos com suas toneladas infindas, que parecem se acumular com o rolar das gerações. Eu jamais conheci um membro sequer de minha família que não fosse aprisionado pelo mal puro e simples da camadas de gordura, avoluamdas pelo tempo e pela arcaica noção aristocrática de que o nobre jamais deve realizar esforço físico, pensamento atrofiado mas que impera na mentalidade absurda de meus ascendentes. Mas pesada também na intensidade do sofrimento, no drama insólito da lamúria inacabável e na multiplicação dos desprazeres infindos. Jamais conheci uma prole tão dada à lamentação e ao pessimismo, gente que fala baixo, mas que como vampiro suga a felicidade, tragando toda a leveza que um ambiente pode ter. É um talento, orquestrado com maestria por todas as filhas de minha bisavó, inclusive minha vó, que de todas considero a mais feliz em sua infelicidade, a que mais orgulhasamente carrega as cruzes mais pesadas dentre suas irmãs. São elas sete, como sete penitências vagando sobre a terra, debulhando a infelicidade, admirando-a e aperfeiçoando-a ao nível de
exuberância cômica e exarcebada.
Tive uma prova dessa estranha natureza logo na tenra infância, quando ainda inocente imaginava descender de gente comum. Foi na ocasião da terceira viuvez entre as irmãs, a morte de meu tio Klauz, um argentino pouco estimado em nossa família, mas que por ocasião de sua morte se tornou o mais querido dos entes. Sua família, na argentina, foi avisada porém nada se manifestou. Eles eram bastante contrários ao seu matrimônio, e a ruptura familiar transcendeu até mesmo sua morte. Era o tio que eu considerava mais sensato, e tinha uma certa alegria intrínseca que anulava a tristeza proscrita de minha tia. Eu tinha pena dele, vivendo entre tantas cunhadas esdrúxulas e em companhia da própria mulher, uma senhora fria e prática, porém muito dada ao dramático. Entrou no enterro com um imenso chapéu incrustado de penas de corvo, e um véu de renda negra caindo pelos ombros para mascarar suas lágrimas sofridas. Chorava baixo, mas tão teatralmente que era impossível naum se doer com seu sofrimento. Segurava o caixão com as luvas de veludo retinto, e olhando para ela era possível se ver uma certa aristocracia cinematográfica, uma cena engolida pelos séculos que ressurgia irreal no meio da quentura tropical brasileira. Porém o que mais me chocou não foi sua idumentária exótica, ou o choro desregulado das outras irmãs, todas elas com suas estolas de pêlo sobre os vetidos de lã cinzenta e luvas resgatadas dos enxovais há muito enclausurados ( o sol urgia a pino no cemitério), mas sim o enterro ao lado. As sepulturas eram bem próximas (pois na morte tudo se iguala), e ao lado havia um enterro de um jovem, que não passava de seus quinze anos, assassinado. A mãe, uma criola ainda jovem, chorava aos berros, ajoelhada na terra, sujando os joelhos mau cobertos pelo vestido ordinário, pedia aos céus para devolver-lhe a criança. Era rodeada pelos filhos e pelo resto da comunidade carente, que apiedade do sofrimento da mãe orava em silêncio. Vi logo então que havia algo errado em minha família, que com hipocrisia comparecia ao funeral como se comparece a uma festa, que sofria como se fossem os únicos a sofrer. Nenhuma pareceu se compadecer do sofrimento da jovem mãe ao lado, de desfigurava o rosto em pranto. Pareciam bastante incomodadas por seu choro estridente.
Digo isso para explicar a irritante prolixidade com que meu discurso amorfo se desenvolve. Eu não tenho escolha, as palavras me hipnotizam. Mas você, leitor, possui liberdade de abandonar agora essas frases sem acalento, existindo em vão. Você possui escolha, e, admito, eu não o invejo por isso. A indecisão das horas duras é capaz de envenenar a mais doce das liberdades, e com os meus grilhões só me resta escrever. A liberdade condena, e eu, prisioneira das palavras, não tenho desejo algum de me libertar de meu cárcere.
A história contada aqui, agora, ainda não existe, ainda não está encarnada. Não é viva, não pulsa. Palavras têm vida própria, e escritores são apenas intermediários de sua sabedoria. Histórias têm vida, respiram, nascem e morrem, são seres complexos cujos mistérios cabe a nós desvendar. Essa em particular nasce agora em seu colo, nescessita de atenção e acalento, e como uma criança, responde ao amor ou ao ódio com ternura ou teimosia. O descaso com as palavras, como se bem sabe, têm proporções cataclismicas. Sempre temi essa força, inexorável e irregular, que não pode ser contida, um titã imbatível, porém com uma sutileza inigualável. Essa força que traga, que cura, que fere, mas que acima de tudo que transforma. Como o amor gera o carinho, e como o descaso gera o ódio, como um discurso pode inflamar um coração ou retardar uma turba, jamais pude completamente entender.
A maior mestra das palavras que jamais conheci foi minha mãe. Lembro-me bem de como cultuava os livros, uma lição que carrego intrínseca em meu espírito. Havia algum brilho quase religioso em seu ser quando ela se recolia em solidão, acariciando a lombada aveludada de algum dos inúmeros volumes de nossa casa. Foi desta época, me lembro bem, que me recordo de uma das mais cataclismicas memórias de minha vida.
Descendo de uma família indescritível, e para descrevê-la eu me afogaria em um tufão de adjetivos. Porém, existe um que a resume em toda a sua essência: Pesada. No sentido mais amplo da palavra, é assim que minha família existe aos meus olhos: pesada, uma rocha que resiste aos tempos com suas toneladas infindas, que parecem se acumular com o rolar das gerações. Eu jamais conheci um membro sequer de minha família que não fosse aprisionado pelo mal puro e simples da camadas de gordura, avoluamdas pelo tempo e pela arcaica noção aristocrática de que o nobre jamais deve realizar esforço físico, pensamento atrofiado mas que impera na mentalidade absurda de meus ascendentes. Mas pesada também na intensidade do sofrimento, no drama insólito da lamúria inacabável e na multiplicação dos desprazeres infindos. Jamais conheci uma prole tão dada à lamentação e ao pessimismo, gente que fala baixo, mas que como vampiro suga a felicidade, tragando toda a leveza que um ambiente pode ter. É um talento, orquestrado com maestria por todas as filhas de minha bisavó, inclusive minha vó, que de todas considero a mais feliz em sua infelicidade, a que mais orgulhasamente carrega as cruzes mais pesadas dentre suas irmãs. São elas sete, como sete penitências vagando sobre a terra, debulhando a infelicidade, admirando-a e aperfeiçoando-a ao nível de
exuberância cômica e exarcebada.
Tive uma prova dessa estranha natureza logo na tenra infância, quando ainda inocente imaginava descender de gente comum. Foi na ocasião da terceira viuvez entre as irmãs, a morte de meu tio Klauz, um argentino pouco estimado em nossa família, mas que por ocasião de sua morte se tornou o mais querido dos entes. Sua família, na argentina, foi avisada porém nada se manifestou. Eles eram bastante contrários ao seu matrimônio, e a ruptura familiar transcendeu até mesmo sua morte. Era o tio que eu considerava mais sensato, e tinha uma certa alegria intrínseca que anulava a tristeza proscrita de minha tia. Eu tinha pena dele, vivendo entre tantas cunhadas esdrúxulas e em companhia da própria mulher, uma senhora fria e prática, porém muito dada ao dramático. Entrou no enterro com um imenso chapéu incrustado de penas de corvo, e um véu de renda negra caindo pelos ombros para mascarar suas lágrimas sofridas. Chorava baixo, mas tão teatralmente que era impossível naum se doer com seu sofrimento. Segurava o caixão com as luvas de veludo retinto, e olhando para ela era possível se ver uma certa aristocracia cinematográfica, uma cena engolida pelos séculos que ressurgia irreal no meio da quentura tropical brasileira. Porém o que mais me chocou não foi sua idumentária exótica, ou o choro desregulado das outras irmãs, todas elas com suas estolas de pêlo sobre os vetidos de lã cinzenta e luvas resgatadas dos enxovais há muito enclausurados ( o sol urgia a pino no cemitério), mas sim o enterro ao lado. As sepulturas eram bem próximas (pois na morte tudo se iguala), e ao lado havia um enterro de um jovem, que não passava de seus quinze anos, assassinado. A mãe, uma criola ainda jovem, chorava aos berros, ajoelhada na terra, sujando os joelhos mau cobertos pelo vestido ordinário, pedia aos céus para devolver-lhe a criança. Era rodeada pelos filhos e pelo resto da comunidade carente, que apiedade do sofrimento da mãe orava em silêncio. Vi logo então que havia algo errado em minha família, que com hipocrisia comparecia ao funeral como se comparece a uma festa, que sofria como se fossem os únicos a sofrer. Nenhuma pareceu se compadecer do sofrimento da jovem mãe ao lado, de desfigurava o rosto em pranto. Pareciam bastante incomodadas por seu choro estridente.
Morri um segundo hoje. Certamente não faz muito sentido, mas ocorreu de maneira tão sincera e contundente que não posso deixar de relatar. O azul das minhas unhas reluziu como a chama de um vulcão, por um segundo esse fogo que consome a vida me consumiu também. Não houve filme de vida, ou qualquer desses clichês, arrependimentos tardios por palavras e atos que não chegaram a se concretizar. Houve apenas um súbito espairecer da opacidade que nos cega, um sentimento repentino e explosivo, um revoar de asas de rapina, um alvorecer dourado. Mas foi apenas um segundo. Por um segundo eu estava presa num universo paralelo, numa explosão que implode para dentro de mim. Era um desatre natural que abalava por completo as minhas estruturas, um tufão que me varria os sentimentos e os misturava feito cacos de vidro. Minhas emoções encharcadas de sangue e suor, pingavam de contentamento. Abri os olhos devagar, como quem nasce. A luz foi uma violência a minha existência, uma luz de outro mundo, outra dimensão, outra razão que jamais existia, mas que estava ali me circundando. Assim não sabia se estava morta, mas viva eu não estava. A vida que eu conhecia jamais fora assim. Estava afogada num oceano de luz que se aprofundava de maneira vertiginosa, não importando a força com que eu fechava os olhos. A luz me afogava e me retia feito água, me sentia presa no próprio sol, que me queimava e abatia. Fogo líquido me circundava, me imobilizava e me feria, me violentava com a força de um terremoto. Era violada aos poucos pela força sacrossanta da morte. Um segundo que durou uma vida, uma dezena de encarnações. Uma morte que me tomou por inteira, num império de sentidos gritando e me estraçalhando sem nunca deixar de sentir. Me corpo sentia mais dor, mais amor mais beleza. A morte na própria potência da vida, jamais uma vida inerte de morte. A morte que me acossou num segundo era plena, complexa, pulsante, feito uma droga que envenenou meu corpo por completo num espasmo de eternidade. Era tão forte e poderosa, comparando a vida a um cristal, frágil e inerte. O segundo de plenitude que me alcançou feito um foguete me explodiu para além das nuvens e das estrelas, era simples reflexo da luz dos teus olhos, que me olhou com calor e fez implodir meu coração indefeso, o leve toque dos seus dedos que foi capaz de me matar, de me paralisar feito presa frágil, sem escapatória que morria de amores embalada em sua pele de fogo. O amor que mata é o mesmo que ressucita, num duelo inevitável que se trava na luz dos olhos dos apaixonados sinceros. A morte e a vida só me fazem sentido quando me olhas assim, e me perco no fogo ardente dos seus olhos.
domingo, 9 de outubro de 2011
Sabe quando você tem vontade de desistir de tudo? Mas tudo mesmo? Da maldita prova de amanha, da prova da semana seguinte, dos curso que você adora, do projeto de verão da academia, de ser responsável e bonita e magra e educada e inteligente e fonte de orgulho? As vezes jogar pro alto tudo o que te dizem, o que não te dizem por medo ou falsidade, o que sua mãe te ensinou, por que raios deveria estar certo? Não é crise de TPM, é só, crise. Por que a TV ou o sorvete ou o sexo são errados? Emburrecem, engordam e engordam, nessa ordem. Sexo não seria supervalorido se não fosse proibido, diabos. Sou virgem, grito aos céus, respondo. Mas o que que tem perder com alguém que não seja seu marido? Alguém que não tenha assinado um papel que te garanta todas as regalias de mulher e rainha da sua conta bancária? É esse o preço do sexo das mulheres precavidas? Todos sabemos que as mulheres precavidas sofrem menos. Menos ansiedade, menos desespero, menos dor de consciência, de cotovelo e de parto. Será? E as que se jogam de cabeça em tudo o que é vida? Desesperadas pela liberdade, jamais se negam a nada, nadinha. Pode dar certo. Mas e se o cara só quer isso de um relacionamento, sexo com uma mulher livre? E o sentimento, que é uma dor literalmente fisica, capaz de te rasgar aos pedaços e te lançar no chão feito um coice? Qual é o valor de um sentimento? é monetário, deve ser reavido? E aquela ideia absurda de que o dinheiro não paga tudo? Ou melhor, não paga absolutamente nada? Nada na minha alma pode ser comprado, nada em mim se cria, se extingue ou se transforma por negócio jurídico e negociação hipotecária. Minha alma é santa, louca e sã, mas não é negociável. Há um preço que se paga pelas almas pagas, mas esse preço é tão maior que dinheiro que não pode ser analisado pela cabeça de um matemático. Vivo num mundo vendido e comprado, numa feira onde tudo é absolutamente reciclável Os valores perderam seu valor, agoram são cifras. E o amor, a vida, o sexo, morte, aquele commodity que é o sentimento? A dor de uma perda, que dinamita o peito que chega a asfixiar, isso não se vende, nem compra. Não é algo que se tenha posse para se negociar, a dor não é sua, você é que pertence a ela. O amor, a dor, a felicidade, o prazer, nenhum um deles é seu. Você pertence irrevogavelmente a eles, algemado a seus grilhões feito um escravo estúpido, cego, surdo, mudo. Ah mania louca de individualismo, somos todos donos e senhores de nós mesmos. A ideia mais absurda jamais escrita. Fome, frio, luxúria, asco são instintos controláveis, são nossos. Mas valores, sentimentos, desses somos marionetes inertes e obedientes. E escolhemos ser escravos dos dinheiro, do poder, do gostinho doce do status. Eu, bem, sou escrava do amor. Sou incondicionalmente apaixonada, e isso me retém e me conduz por caminhos tão errados quanto incompletos. Quando as pessoas pararam de parar seu dia alguns segundos, só pra se sentir apaixonadas? Só? Ah Clarisse, você não seria capaz de viver nesse mundo, nunca foi. A vocação irrevogável da alma não pode ser negligenciada. Escrever é como se o próprio nectar do espírito escorresse pelo papel, manchando sua brancura com a precariedade e violência de uma alma profana, sedenta por estravasar suas complexas extruturas, ilegíveis para qualquer um que não as reconheça. Escrever é o próprio respirar da alma, que se não asfixia. Uma alma enforcada te mata aos poucos, te tortura e te oprime. Escrever é tão essencial, libertador, profano e sagrado, que me doi o espírito se não o faço. É a própria linguagem dos anjos, meus anjos, que se traduz pela tinta e papel, ato tão rudimentar e essencial quanto o choro de uma criança. Ah como eu quero me entregar, assim tão fácil quanto um beijo e uma carícia. Você não sabe, e nem deve saber, como me tem assim na mão, assim feito sua boneca, assim meio incompleta e desastrada, mas só sua. Não sabe jamais como me arrepio, como meus pensamentos vao na velocidade da luz até se paralisarem quando você me toca, assim tão fácil, tão natural que é assustador. Com um toque você já me tem toda sua, derretida completamente na sua temperatura alucinante. Mas isso acaba, a paixão, o amor? é certo se entregar para uma coisa incerta, incapaz te dar garantias de eternidade? É certo não se entregar a um momento, a um relance de efemeridade? Um contrato torna isso lícito? Mas humanos não são eternos, nada relacionado a eles o é. Viver perdido nessa ilusão de eternidade, quando tudo não passa de um vislumbre. Por isso o duradouro é caro, é valorizado, é uma ilusão vendida por seu peso em ouro. Quero ser sua, toda sua, cada pedaço de mim te pertence. Mas você sabe valorizar? Amanha ainda valerá o bastante? Por que o que eu sinto por você não é nada é comparação ao amor que eu sinto por mim. Esse não muda, é meu. Mas e você, você sabe que eu sou sua, sou sua até que não haja mais nada.
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