quinta-feira, 13 de outubro de 2011

                As palavras fluem de mim como um rio, em sua inexorável enxurrada, sem caminho e sem controle. Não foi uma coisa que eu escolhi, nasceu em mim, é metade de mim, me consome por inteiro, é a matéria da qual se constitue minha essência. Não poderia ser de outra forma, assim como a andorinha não deseja ser o mar, não desejo eu me ver livre desse vício, dessa obessessão que me consome e me alimenta. Minha atração é fatal para a arte escrita, e dela não posso me livrar. Assim como o pintor é apenas o mensageiro de suas cores, como a Prima Donna é mera escrava de sua voz, o escritor não é mais o corpo que abriga e expressa a alma de suas palavras.
                Digo isso para explicar a irritante prolixidade com que meu discurso amorfo se desenvolve.  Eu não tenho escolha, as palavras me hipnotizam. Mas você, leitor, possui liberdade de abandonar agora essas frases sem acalento, existindo em vão. Você possui escolha, e, admito, eu não o invejo por isso. A indecisão das horas duras é capaz de envenenar a mais doce das liberdades, e com os meus grilhões só me resta  escrever.  A liberdade condena, e eu, prisioneira das palavras, não tenho desejo algum de me libertar de meu cárcere.
                A história contada aqui, agora, ainda não existe, ainda não está encarnada. Não é viva, não pulsa. Palavras têm vida própria, e escritores são apenas intermediários de sua sabedoria. Histórias têm vida, respiram, nascem e morrem, são seres complexos cujos mistérios cabe a nós desvendar. Essa em particular nasce agora em seu colo, nescessita de atenção e acalento, e como uma criança, responde ao amor ou ao ódio com ternura ou teimosia. O descaso com as palavras, como se bem sabe, têm proporções cataclismicas. Sempre temi essa força, inexorável e irregular, que não pode ser contida, um titã imbatível, porém com uma sutileza inigualável. Essa força que traga, que cura, que fere, mas que acima de tudo que transforma. Como o amor gera o carinho, e como o descaso gera o ódio, como um discurso pode inflamar um coração ou retardar uma turba, jamais pude completamente entender.
                A maior mestra das palavras que jamais conheci foi minha mãe.  Lembro-me bem de como cultuava os livros, uma lição que carrego intrínseca em meu espírito. Havia algum brilho quase religioso em seu ser quando ela se recolia em solidão, acariciando a lombada aveludada de algum dos inúmeros volumes de nossa casa. Foi desta época, me lembro bem, que me recordo de uma das mais cataclismicas memórias de minha vida.
                Descendo de uma família indescritível, e para descrevê-la eu me afogaria em um tufão de adjetivos. Porém, existe um que a resume em toda a sua essência: Pesada. No sentido mais amplo da palavra, é assim que minha família existe aos meus olhos: pesada, uma rocha que resiste aos tempos com suas toneladas infindas, que parecem se acumular com o rolar das gerações.  Eu jamais conheci um membro sequer de minha família que não fosse aprisionado pelo mal puro e simples da camadas de gordura, avoluamdas pelo tempo e pela arcaica noção aristocrática de que o nobre jamais deve realizar esforço físico, pensamento atrofiado mas que impera na mentalidade absurda de meus ascendentes. Mas pesada também na intensidade do sofrimento, no drama insólito da lamúria inacabável e na multiplicação dos desprazeres infindos. Jamais conheci uma prole tão dada à lamentação e ao pessimismo, gente que fala baixo, mas que como vampiro suga a felicidade, tragando toda a leveza que um ambiente pode ter. É um talento, orquestrado com maestria por todas as filhas de minha bisavó, inclusive minha vó, que de todas considero a mais feliz em sua infelicidade, a que mais orgulhasamente carrega as cruzes mais pesadas dentre suas irmãs. São elas sete, como sete penitências vagando sobre a terra, debulhando a infelicidade, admirando-a e aperfeiçoando-a ao nível de
exuberância cômica e exarcebada.
                Tive uma prova dessa estranha natureza logo na tenra infância, quando ainda inocente imaginava descender de gente comum. Foi na ocasião da terceira viuvez entre as irmãs, a morte de meu tio Klauz, um argentino pouco estimado em nossa família, mas que por ocasião de sua morte se tornou o mais querido dos entes. Sua família, na argentina, foi avisada porém nada se manifestou. Eles eram bastante contrários ao seu matrimônio, e a ruptura familiar transcendeu até mesmo sua morte.  Era o tio que eu considerava mais sensato, e tinha uma certa alegria intrínseca que anulava a tristeza proscrita de minha tia. Eu tinha pena dele, vivendo entre tantas cunhadas esdrúxulas e em companhia da própria mulher, uma senhora fria e prática, porém muito dada ao dramático. Entrou no enterro com um imenso chapéu incrustado de penas de corvo, e um véu de renda negra caindo pelos ombros para mascarar suas lágrimas sofridas. Chorava baixo, mas tão teatralmente que era impossível naum se doer com seu sofrimento. Segurava o caixão com as luvas de veludo retinto, e olhando para ela era possível se ver uma certa aristocracia cinematográfica, uma cena engolida pelos séculos que ressurgia irreal no meio da quentura tropical brasileira. Porém o que mais me chocou não foi sua idumentária exótica, ou o choro desregulado das outras irmãs, todas elas com suas estolas de pêlo sobre os vetidos de lã cinzenta e luvas resgatadas dos enxovais há muito enclausurados ( o sol urgia a pino no cemitério), mas sim o enterro ao lado. As sepulturas eram bem próximas (pois na morte tudo se iguala), e ao lado havia um enterro de um jovem, que não passava de seus quinze anos, assassinado. A mãe, uma criola ainda jovem, chorava aos berros, ajoelhada na terra, sujando os joelhos mau cobertos pelo vestido ordinário, pedia aos céus para devolver-lhe a criança. Era rodeada pelos filhos e pelo resto da comunidade carente, que apiedade do sofrimento da mãe orava em silêncio. Vi logo então que havia algo errado em minha família, que com hipocrisia comparecia ao funeral como se comparece a uma festa, que sofria como se fossem os únicos a sofrer. Nenhuma pareceu se compadecer do sofrimento da jovem mãe ao lado, de desfigurava o rosto em pranto. Pareciam bastante incomodadas por seu choro estridente.              

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