quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Dizem que a loucura é o vício dos sofredores, o escape dos flagelados, o excesso  dos degenerados. Comparam a loucura a uma simples substância, a uma efêmera sensação, tão passageira quanto ilusória. A loucura dos viciados não passa de vício, essa loucura forjada dos revoltados, dos sofredores, dos perdidos, que buscam alento em substâncias mundanas que não fazem mais que destruir e alienar, jamais esclarecer ou iluminar. A loucura de que falo, a loucura divina, dos artistas e dos gênios não deve ser anestesiada por nenhuma droga, é uma iluminação genuína que não precisa de intermediários para ser alcançada. A loucura é a droga natural humana, de que se alimentam os incompreendidos, os filhos da solidão e da razão. Não falo da razão ordinária e rasa da qual se alimenta a sociedade, mas uma razão mais profunda, uma razão que parte da essência humana, que não pode ser anestesiada ou curada pelas substâncias profanas que divertem os levianos.
            A loucura de que falo é aquela dos homens que são deuses, e que por isso não podem ser confundidos com homens. A loucura da mente que é realmente lúcida, e que por isso se diferencia dos delírio coletivo de que vive a sociedade. Essa sociedade que ser acredita racional, a epítome da raça humana, mas que na verdade padece de tantos males que mal se mantém viva. A hipocrisia, a crueldade, a frieza, a crueza, o preconceito, o egoísmo, de tudo o isso a loucura se livra, e por isso é estigmatizada, marginalizada. A loucura que se afasta do delírio em que vivem os homens em sua natureza mesquinha, que existe em um plano diferente do mundano, é dessa loucura divina de que falo. Por ser distinta é incompreendida, talvez invejada. Sócrates, que jamais viveu neste mundo e não fez nada além de tentar ilumina-lo com sua sabedoria, foi assassinado pelos mesmos homens que se dizem sãos. Tantos outros loucos tiveram o mesmo destino. Chamam a loucura de doença, quando na verdade é apenas inspiraçao.
            A medicina da loucura é a arte, a genialidade, o isolamento profético dos inspirados. Drogar os corpos não aprisiona a alma, que não é passível de anestesia. Internar os loucos jamais foi alento para as pessoas insanas, mas sim uma resposta à sociedade que desejava se ver livre daqueles que não se encaixavam em seus padrões mesquinhos. A loucura não é voluntária nem pode ser curada ou apaziguada, é uma inquietação da mente que recusa a se adaptar a quaisquer condições, sempre em busca do alimento divino de sua insanidade. O vicío de que fala, essa luxúria narcótica, esse desejo ilibado do ópio é doença do corpo e não iluminação da mente, como afirma. O ópio se irradia nos sentidos, nos instintos, e não nos pensamentos. A orgia descabida em que vivem os degenerados em sua fome de droga é consequência do mesmo descaso da sociedade para com os humanos em que se funda a loucura, mas possuem naturezas muito distintas. A loucura e o vício possuem o mesmo desejo, a distância das mesquinharias do homem domesticado, porém não podem ser confundidas, mesmo que as vezes, ou melhor dizendo frequentemente, se fundam de maneira indifereciàvel.
            A loucura que você alude possuir não é mais que vício, rebelião e revolta, pois a verdadeira loucura não reconhece a si mesmo e tão pouco se vangloria. Seus sentimentos são nobres e sua causa é justa, pois a hipocrisia da sociedade tem o hábito de marginalizar os que ousam se desencaixar, porém não há nisso a presença da loucura. A loucura não precisa de subterfúgios para se manisfestar na mente humana, a loucura forjada ou induzida não passa de delírio, pois a loucura não é alcançada e sim plena, inata.  A loucura transcende a mente, enquanto o vício não vai além das barreiras instintivas do corpo. 

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