Tinha olhos cor de areia, como as sereias do seu tempo. Seu beijo tinha hálito de algo forte, como pimenta ou canela, e deixava a boca pulsando por mais. Era dessas de cabelo negro e denso como a noite, com os fios sedosos de escuridão roçando a pele de mel. Nada tinha de anjo ideal. Não possuia uma par de asas de rapina nas omoplatas angulosas, nem vestia uma túnica de seda branca, nem era rodeada por uma aura de luz dourada. Mesmo assim era um anjo, e ninguém duvidava. Aparecia apenas quando queria, e apenas para os homens que desejava. Sabiam que não era uma sereia pois seu cheiro não era de mar e sal, mas sim um cheiro pesado, cheiro de verão, que anunciava sua presença muito antes de poder ser vista.
Era sereia dos céus, responsável por levar os homens à loucura. Jamais aparecia a homens solteiros, e muitos se casavam apenas para ver sua figura de serpente se insinuar por entre seus sonhos. Era real, como todos as que a tinham visto juravam. Podiam descrever com ardente riqueza de detalhes o gosto agridoce de sua pele de veludo, o som turvo de sua voz de ninfa, a textura de seus seios de odalisca, os lábios da cor de hibiscos no verão, o nirvana apocalíptico de um gozo ao seu lado. Um tinha em casa uma mecha de seus cabelos, e um outro uma pulseira de prata que ela havia esquecido em uma de suas visitas. Um outro tinha até mesmo uma pedaço de seda branquíssimo que, segundo els, vestia sua spartes íntimas antes que ela se despisse para ele. Era hetérea e sensual como nenhuma outra, era incandescente e aflita, aquela mulher que só aparecia para homens casados de Baía da Traição. Tinha o corpo todo de curvas, sinuoso como um rio, dançando num ritmo de selvageria que só ela e seu amante sentiam.
Chamavam-na Nirana por seus olhos de ninfa. As mulheres casadas usavam os lençóis manchados de virtude da noite de núpcias para proteger a casa, a única arma que parecia ter efeito sobre a estranha entidade. Mas os maridos mais imprudentes ousavam queimar tais amuletos, ou simplesmente lava-los em água quente para que perdessem sua eficácia. A visita de Nirana, deusa informal de Baía da Traição, era esperada ansiosamente por todos os homens. Aparecia em qualquer hora, e em qualquer lugar. Já havia sido vista nua lavando os cabelos no mar iluminada pela luz da lua, e também cantarolando com sua voz de sereia sentada sobre o muro de casas respeitáveis sob pleno sol do meio dia.
Desaparecia assim que se satisfazia em sua lascivia infinita, e deixava os homens com uma exaustão de escravo que era mais um das provas de sua existência. Era meio mulher, meio deusa e também meio bicho, essa santa pornográfica da cidadezinha minúscula. As vezes também aparecia para as mulheres traídas, beijando seus corpos e fazendo-as gritar como seus maridos jamais conseguiriam, mas essas visitas eram secretíssimas, e nenhuma senhora de respeito comentava sobre elas, apesar de ansia-las com falso recato.
Alguns diziam que Nirana era a própira alma da cidadezinha, um sopro de vida existente dês de a época dos colonozadores brancos como sal. Era a vinguança dos potiguaras, pois dizia-se aparecer para os franceses para matá-los durante o ato sexual. Mas ela perdera sua sede de vingança (embora não sua ninfomania), e continuava aparacendo para os homens casados, bela e impávida, com o fim único de morrer de amores por uma noite, deixando para trás um rastro de corações partidos. Não havia dúvida, no entanto, que era a mais bela dentre as mulheres e as sereias, e também de que era real.
A prova inconstetável de que era real veio numa manhã quente de setembro, quando o mar se debatia numa ressaca de morte. O sol ainda estava pálido, e as empregadas acordavam para bater o leite e colher os ovos, e o senhores menos recatados voltavam dos bordéis ainda meio ébrios de álcool e prazer. Foi um desses peregrinos da alvorada quem primeiro viu o corpo. Bem ali, no meio da pracinha de pavimento cor de creme e lampiões vitorianios, os únicos da cidade, ele viu o corpo. Ele se adiantou despreocupado, pensando tratar-se de algum bêbado adormecido, o que não era incomum.
Foi nesse momento que o sol nasceu de fato, lançando impiedoso seus raios sobre a pracinha da Báia da Traição. Foi nesse momento que o coronel Castelo viu, deitada sobre um charco de sangue negro, a mais misteriosa das criaturas entre o céu e a terra, a deusa informal da cidade, morta sob o céu límpido. Coronel Castelo a reconheceu no ato, seus cabelos de escuridão, sua pele de açúcar queimado, o cheiro pesado de verão e de pecado que a circundavam e que começava a empestar o ar com sua lasciva pecaminosa. Tomou-a no braços, inconsolado, manchando sua nobre casaca com sangue de anjo, sentindo o corpo ainda quente da divindade no colo. Chorou de amores, pois Nirana era senhora de seu coração, como também era senhora inconstestável no coração de muitos dos homens da cidade. Chorou o seu regaço, lamentou tão alto a perda da santa que acabou por acordar a cidade inteira, que se reuniu estupefata em volta da praça ainda nas camisolas de dormir.
Ninguém acreditou, e no entanto a prova estava diante de seus olhos. A ninfa da Baía, divindade sem idade que aparecia aos homens casados desde que a cidade fora fundada, estava ali, assassinada a sangue frio, coberta no próprio sangue, jogada no chão da praça, como uma pessoa comum. Todos os homens choravam, num espetáculo único, como se derrepente tivessem se tornados viúvos de uma mulher só. Todos reconheciam a mulher, e não havia dúvidas de sua identidade.
quarta-feira, 25 de julho de 2012
terça-feira, 24 de julho de 2012
Apertou o anel com força entre seus dedos alvos. Apertou com tanta força que as esmeraldas lapidadas se encravaram em sua pele , fazendo escorrer um fio de sangue que pingou no carpete. A dor só a fez apertar a joia com mais força. Queria esconder a peça sob sua pele, num lugar que só ela poderia encontrar. Porém quando o fio de sangue se transformou num fino regaço entre seus dedos feridos, ela o largou esquecido no chão, com o ouro manchado de vermelho vivo. Na palma da mão a marca dos espinhos estava escondida num espelho de sangue.
quarta-feira, 4 de julho de 2012
A mulher do coronel
-Casar?
Coronel Castelo, para a surpresa de todos, se encontrava prostrado na cama de jacarandá, arquejando num soluço de morte, suando frio e enrolado em mantas de lã, em pleno fogo da Baía da Traição. Rodeavam-no o reverendo e o jovem paroquiano, sua esposa num ninho de chales e chapéu europeu, além dos dois filhos, a mais velha, uma beata carola com quarenta anos mas que se vestia como se estivesse no auge dos setenta, e o filho mais moço, o futuro coronel de pequena cidade de Baía da Traição.
-Sim meu filho, casar. Não vou bater as botas até ter visto até ter visto o senhor com uma esposa respeitável, afinal os coronéis não hão de respeitar um coronel solteiro, que há de ser baitola.
O jovem Antônio se exasperou, torcendo a expressão. De baitola não tinha nada, amava as mulheres, todas as musas mariposas da noite, que de dia escondiam a pele da opalescencia do sol. Amava suas dracenas inconstantes (ah, um inconstante...), seus amores de momento, e então a paz austral de seu quarto, sem as lamúrias características das esposas honestas.
Não desejava se casar e contrair, além dos deveres de macho, os deveres do matrimônio. Sabia, porém, ser impossível fugir ao matrimônio, pois os filhos legítimos não vinham de outra maneira, e a irmã carola não ia parir nada de seu ventre seco.
-Sim, meu pai, me resigno diante de tua vontade.
-Pois bem. A noiva chega dentro de alguns dias, pois mandei enconmendá-la de Salvador, como é o costume. Aqui nessa cidade minúscula não há moça casadoira de família boa o bastante para fazer par à moça que escolhi. O pai é fazendeiro de açúcar, assim como nós, e bastante rico, como poucos o são.
A noite era escura, pois a lua era escassa no céu. Antônio, tão noivo, se afogava nos copos reluzentes de bebida lustrosa, sozinho entre as açucenas fluorescentes de setembro. O pai morria lentamente, mas sabia que de súbito o golpe fatal lhe levaria para longe. A noiva, no colo da embarcação que a trazia da distante Bahia, mirava a mesma lua magra, indecisa em seu destino solitário.
Coronel Castelo, para a surpresa de todos, se encontrava prostrado na cama de jacarandá, arquejando num soluço de morte, suando frio e enrolado em mantas de lã, em pleno fogo da Baía da Traição. Rodeavam-no o reverendo e o jovem paroquiano, sua esposa num ninho de chales e chapéu europeu, além dos dois filhos, a mais velha, uma beata carola com quarenta anos mas que se vestia como se estivesse no auge dos setenta, e o filho mais moço, o futuro coronel de pequena cidade de Baía da Traição.
-Sim meu filho, casar. Não vou bater as botas até ter visto até ter visto o senhor com uma esposa respeitável, afinal os coronéis não hão de respeitar um coronel solteiro, que há de ser baitola.
O jovem Antônio se exasperou, torcendo a expressão. De baitola não tinha nada, amava as mulheres, todas as musas mariposas da noite, que de dia escondiam a pele da opalescencia do sol. Amava suas dracenas inconstantes (ah, um inconstante...), seus amores de momento, e então a paz austral de seu quarto, sem as lamúrias características das esposas honestas.
Não desejava se casar e contrair, além dos deveres de macho, os deveres do matrimônio. Sabia, porém, ser impossível fugir ao matrimônio, pois os filhos legítimos não vinham de outra maneira, e a irmã carola não ia parir nada de seu ventre seco.
-Sim, meu pai, me resigno diante de tua vontade.
-Pois bem. A noiva chega dentro de alguns dias, pois mandei enconmendá-la de Salvador, como é o costume. Aqui nessa cidade minúscula não há moça casadoira de família boa o bastante para fazer par à moça que escolhi. O pai é fazendeiro de açúcar, assim como nós, e bastante rico, como poucos o são.
A noite era escura, pois a lua era escassa no céu. Antônio, tão noivo, se afogava nos copos reluzentes de bebida lustrosa, sozinho entre as açucenas fluorescentes de setembro. O pai morria lentamente, mas sabia que de súbito o golpe fatal lhe levaria para longe. A noiva, no colo da embarcação que a trazia da distante Bahia, mirava a mesma lua magra, indecisa em seu destino solitário.
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