terça-feira, 27 de março de 2012

Morreu num quarto seco, desamparado, apenas ao lado da filha. O ar diáfano cheirava a orquídeas brancas, e por todo o resto da eternidade Amélie iria associar tal perfume com a presença da morte. Da janela, o mar era cor de esmeralda, iluminado pelas primeiras luzes da manha. Assim que o sol surgiu por entre as ondas, feito uma sereia, as duas velas na cabeceira se apagaram. Amélie sentiu uma corrente gelada abraçar seus ossos, e o calor da mão do pai se transformara em tremor. Durou apenas um segundo, e então tudo era paz novamente. A ferida não era de longe tão impressionante quanto fora ontem na rua, um olho de sangue seco por onde a bala entrara.

terça-feira, 20 de março de 2012

O centauro de alma gelada foi banhado pela luz do firmamento, que cristalina tingiu sua acetinada tez de metal. Havia dor e desespero em sua gélida existência, no limbo de sua carcaça imortal. As setas de pestilência eterna estavam encravadas em seu lombo, para sempre latejando e sangrando suas pústulas celestiais. As desencravava  uma a uma, sentindo o sangue escorrer das feridas indo molhar seus cascos espelhados. Uma a uma ela as encaixava no arco de matador assassino, certeiro e potente, presente das estrelas por ocasião de seu nascimento. Uma a uma ele as disparava, lançando-as para além do firmamento, viajando por entre as órbitas dos planetas, indo cravar-se na terra, casa dos humanos. De seu trono entre as estrelas, o sofrido centauro era capaz de ver todos eles, seus pensamentos e ações. Era muito sensível aos corações partidos, aos amores proibidos, às paixões secretas e aos mistérios da luxúria.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Não parecia divino. Ceratmente, parecia bastante mortal, quase comum. Ela teve até medo de pensar tal blasfêmia, mas era inevitável. Ele comia pão com linguiça e cebolas com café preto num café de esquina, vestindo uma jaqueta de couro surrada, botinas lambuzadas de lama e um jeans de lavagem original, que parecia ser ainda mais antigo que o couro da jaqueta. Tinha a pele queimada, meio toscana, e exalava um cheiro suave, que ela não podia decidir se eram uvas ou azeite. Comia sozinho, sem pressa, saboreando com cuidado o café amargo sem açúcar ou creme.  Ela estava num café em frente, vendo-o pelo outro lado da ruela calçada de paralelepipedos, comendo por educação brioches e um pavoroso chá inglês. Mal prestava atenção no gosto da comida, o observava hipnotizada. Podia sentir o cheiro suave que chegava até ela, por que já o conhecia há mutos anos, talvez há muitas vidas. Via seus olhos árabes mirando o nada, o cabelo muito negro ondulando com suavidade na brisa matinal que acordava  o transtevere, a rudeza de suas mãos manipulando os talheres de latão e a xícara lascada. Parecia humano, e não gerou surpresa em nenhum dos outros integrantes do café, nem mesmo na loura bonita que servia as mesas, o que lhe pareceu absurdo. Pagou a ela com notas amarrotadas, e deixou no pires mais algumas de gorjeta. A pele branca reluziu sob o sol assim que ele deixou a calçada, e os olhos tão negros reluziram na direção dela, mas apenas por um segundo. Sabia de cor seus olhos árabes, tão negros que era impossível divisar as pupilas. Ela tomou o resto amargo do chá, deixou algumas moedas sob o prato e tomou a rua com a clara intenção de segui-lo. Sentia o frescor de seu rastro, a fragrância  tão peculiar de azeite ou de uvas, era impossível explicar como se confundiam.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Castelo de areia

 Era uma princesa num castelo de areia. Um reino salgado, da cor da pele dos anjos, erguido sobre muralhas que o mar destroçaria a golpes de maresia. Seu reino de sonha se erguia no dia, subindo feito mágica no lodo de areia molhada, coroado por mil algas de todos os mundos, com torres e cúpulas vigiados pelos olhos ardentes de uma sereia. E toda noite o mar o engolia semelhante maravilha com a indiferença de um titã, destruindo com seu maremoto os alicerces de um sonho. Era uma princesa dos mares, reinando num castelo de areia dourada. Assim era o sonho, a eterna ilusão sob o sol ardente, uma miragem de mil léguas, que iria durar por mais mil anos. Um amor que não se constrói sobre rocha viva há de durar como os castelos de areia das princesas da lenda. Era uma princesa de beleza insólita, suave e fulgurante como a luz, feita da estranha matéria iridescente de que são feitos os sonhos, os delírios e as miragens. Uma princesa que em seu mundo era realeza absoluta e solitária, fadada a eclipsar para sempre entre os caprichos da maré, morre afogada todos os dias para renascer imperatriz dos deuses novamente ao amanhecer. O destino impávido a fez rainha de um império errante que resplandecia nas areias de prata pelo tempo de um suspiro, até que a fúria das espumas transformasse tudo em apocalíptica lembrança de um sonho. Porém, mesmo o destino, em sua infinita malícia, era incapaz de prever o coração de uma mulher, como são também incapazes de prevê-lo todos os seres que o habitam. Não sabia ele que o coração das princesa da lenda são oceanos ainda mais inóspitos que os mares infinitos que banham a terra. A princesa, vivendo sua rotina maldita de fênix, morrenda afogada sob a luz das estrelas para renascer de manha em todo seu esplendor divino, acabou por apaixonar-se por sua perdição, como era o hábito das criaturas indóceis. Vivia em constante conflito, pois amava com força seu reino esplendoroso e lhe doia a lama vê-lo violado pela fúria das águas, porém amava também o esplendor do mar de cobre, o insensível titã que a afogava em sua própria dor e júbilo com o toque das águas iradas. A todo tempo estava dividida entre a fidelidade ao seu reino, onde morava seu espírito de realeza absoluta, e o amor que infectara sua alma com uma marca de fogo e gelo, a idolatria que sentia pela besta insensível que todos os dias vinha demolir seu mundo até o último grão de areia. Estava completamente à mercê da criatura apocalíptica, tão frágil quanto os muros de seu castelo aos encantos do oceano. Porém, era dolorosamente consciente que jamais conseguiria emocionar tal divindade, cujo coração gelado estava enterrado a mais de mil léguas submarinas, guardado pelas pavorosas criaturas sanguinárias que reinavam absolutas nas inóspitas fendas oceânicas. Essa consciência a feria fundo como navalhadas ardentes, ainda mais violentamente que quando o mar devorava as areias com sua ansiedade famélica, insensível aos destroços de sua natureza cataclísmica. A princesa sabia que estava fadada a viver até que o tempo parasse de correr com o coração asfixiado no mais destrutivo de todos os amores já vividos, que era capaz de todos os dias mata-la afogada em júbilo e então ressucita-la para que ela pudesse viver novamente as agruras dos amores ignorados. Porém, era tanta sua dignidade de realeza estropiada, num reino fadado a fracassar diariamente até o fim dos tempos, que acabou por comover o mar em sua fúria infinita e seu espiríto livre de titã divino. O tirânico oceano se viu apaixonado por uma criatura tão indócil e comovente, uma princesa que só existia na lenda e nos sonhos, fragil e etérea como a luz, que ele mesmo matava todos os dias ao destruir seu império de areia e prata. E mesmo assim, todos os dias, numa teimosia infinita de perseverança, o castelo emergia novamente de suas cinzas amargas para ressurgir fulgurante como outrora. O mar, que podia escolher entre as sereias de olhos de ouro e as deusas míticas que surgiam com a maresia, acabou enamorado pela princesa de eterna efemeridade. Não havia porém remédio possível. Sabia que jamais poderia deixar de destruir seu castelo com a fúria de suas marés incontroláveis, pois estava em sua natureza de cataclisma indócil. E também sabia que não poderia tragar a princesa para dentro de seus domínios, pois ela jamais abandonaria a realeza de seu castelo. Estavam fadados a viver esse amor impossível, com as barreiras intransponíveis da natureza se impondo entre eles. Inconsolado, o mar sabia que jamais poderia de deixar de destrir o mundo de sua amada todas as manhas, porém ao invés de reduzi-lo a nada, transformou os estilhaços vazios em conchas acetinadas, que ele espalhou pelas praias de todos os oceanos da terra. A cada vez que a maré subia para destroçar o frágil castelo de sua amada, ele eternizava cada um dos graos de areia em cacos de joia para vestir as areias de prata e embelezar o castelo quando ele surgisse novamente na maré baixa. Todas as milhões de conchas do universo, as gemas brilhantes do oceano que se semeavam opalescentes pelas areias da eternidade, ele oferceu à sua princesa de lenda. Ao ver a praia de seus domínio refulgindo de conchas, a princesa chorou de amores, pois mesmo que não pudesse viver seu amor, sabia que ele estava ali, por todas as conchas que se multiplicavam todos os dias nas areias míticas. E quando respingaram nas conchas, suas lágrimas cristalinas se transformaram em pérolas preciosas, que ela então ofereceu de presente a seu amada inconstante. Um amor de lenda que jamais pode ser vivido ou compreendido, mas tão real quanto as conchas e as pérolas que forram um sonho de eternidade.

sábado, 10 de março de 2012

essência

Eu rodei o mundo procurando a essência das pessoas. O que nos define, afinal? Essa pergunta me perseguiu por incontáveis séculos, e jamais pude a responder com clareza. O que há de absoluto, inegável, essencial, eterno em cada pessoa? O que as define, diferencia de maneira inviolável? A resposta mais óbvia, e também mais estúpida, é o nome. Sheakspeare já indagava, o que há num nome? A rosa, com nome diverso, teria então o mesmo perfume... Nomes são rótulos, são externos à essência, que se abriga no mais profundo âmago. Seria então a profissão? Os hobbies, os amigos, namorados, os sonhos, aspirações? Tudo isso é importante, alicerces da personalidades, sintomas da essência, porém não se correspondem. Por séculos procurei a própria essência, e, no entanto, só esbarrava em seus reflexos. Alegria, maldade, tristeza, candura, felicidade, euforia, loucura, ira, ódio, recalque, orgulho, inveja, são todos traços superficiais de algo que se encontra enterrado mais fundo, mais para além do alcance da mente, algo que lateja e emite tais sinais. Por fim, cheguei a algo que não poderia ser nada senão essência: a maneira das pessoas de amarem. Isso as define e diferencia, algo perene e absoluto, que dificilmente muda através das encarnações. A forma do amor em cada um é tão distinta e paradigmática que assim defino sua essência. Uns amam com paixão, outros com ironia. Uns amam em absoluto, outros relativamente, e esses jamais deixarão de ser infelizes. Alguns amam com paciência, sabedoria, e outros com loucura. Há os que amam com candura, e os que amam com violência. Há os que amam em segredo, e os que não demonstram que amam. Há, porém, os que amam com audácia, com preocupante estardalhaço. Os que amam com luxúria, os que amam com cobiça, os que amam com ternura. E então, no fim, descobri que há os que não amam. Esses inspiram-me terror, pois para mim é inconcebível a completa incapacidade de amar, mas ela existe. Todas as formas de amor são válidas, exceto aquelas que não são amor. Pois é impossível amar senão pessoas, amar coisas se torna apego, posse. Não há amor na posse, e quem acima de tudo possui não ama. Não amar. Tão irracional, tão impossível, e, no entanto, existente. Há na terra aqueles que não amam, e para esses não há cura.