terça-feira, 27 de março de 2012

Morreu num quarto seco, desamparado, apenas ao lado da filha. O ar diáfano cheirava a orquídeas brancas, e por todo o resto da eternidade Amélie iria associar tal perfume com a presença da morte. Da janela, o mar era cor de esmeralda, iluminado pelas primeiras luzes da manha. Assim que o sol surgiu por entre as ondas, feito uma sereia, as duas velas na cabeceira se apagaram. Amélie sentiu uma corrente gelada abraçar seus ossos, e o calor da mão do pai se transformara em tremor. Durou apenas um segundo, e então tudo era paz novamente. A ferida não era de longe tão impressionante quanto fora ontem na rua, um olho de sangue seco por onde a bala entrara.

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