segunda-feira, 19 de março de 2012

Não parecia divino. Ceratmente, parecia bastante mortal, quase comum. Ela teve até medo de pensar tal blasfêmia, mas era inevitável. Ele comia pão com linguiça e cebolas com café preto num café de esquina, vestindo uma jaqueta de couro surrada, botinas lambuzadas de lama e um jeans de lavagem original, que parecia ser ainda mais antigo que o couro da jaqueta. Tinha a pele queimada, meio toscana, e exalava um cheiro suave, que ela não podia decidir se eram uvas ou azeite. Comia sozinho, sem pressa, saboreando com cuidado o café amargo sem açúcar ou creme.  Ela estava num café em frente, vendo-o pelo outro lado da ruela calçada de paralelepipedos, comendo por educação brioches e um pavoroso chá inglês. Mal prestava atenção no gosto da comida, o observava hipnotizada. Podia sentir o cheiro suave que chegava até ela, por que já o conhecia há mutos anos, talvez há muitas vidas. Via seus olhos árabes mirando o nada, o cabelo muito negro ondulando com suavidade na brisa matinal que acordava  o transtevere, a rudeza de suas mãos manipulando os talheres de latão e a xícara lascada. Parecia humano, e não gerou surpresa em nenhum dos outros integrantes do café, nem mesmo na loura bonita que servia as mesas, o que lhe pareceu absurdo. Pagou a ela com notas amarrotadas, e deixou no pires mais algumas de gorjeta. A pele branca reluziu sob o sol assim que ele deixou a calçada, e os olhos tão negros reluziram na direção dela, mas apenas por um segundo. Sabia de cor seus olhos árabes, tão negros que era impossível divisar as pupilas. Ela tomou o resto amargo do chá, deixou algumas moedas sob o prato e tomou a rua com a clara intenção de segui-lo. Sentia o frescor de seu rastro, a fragrância  tão peculiar de azeite ou de uvas, era impossível explicar como se confundiam.

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