-Casar?
Coronel Castelo, para a surpresa de todos, se encontrava prostrado na cama de jacarandá, arquejando num soluço de morte, suando frio e enrolado em mantas de lã, em pleno fogo da Baía da Traição. Rodeavam-no o reverendo e o jovem paroquiano, sua esposa num ninho de chales e chapéu europeu, além dos dois filhos, a mais velha, uma beata carola com quarenta anos mas que se vestia como se estivesse no auge dos setenta, e o filho mais moço, o futuro coronel de pequena cidade de Baía da Traição.
-Sim meu filho, casar. Não vou bater as botas até ter visto até ter visto o senhor com uma esposa respeitável, afinal os coronéis não hão de respeitar um coronel solteiro, que há de ser baitola.
O jovem Antônio se exasperou, torcendo a expressão. De baitola não tinha nada, amava as mulheres, todas as musas mariposas da noite, que de dia escondiam a pele da opalescencia do sol. Amava suas dracenas inconstantes (ah, um inconstante...), seus amores de momento, e então a paz austral de seu quarto, sem as lamúrias características das esposas honestas.
Não desejava se casar e contrair, além dos deveres de macho, os deveres do matrimônio. Sabia, porém, ser impossível fugir ao matrimônio, pois os filhos legítimos não vinham de outra maneira, e a irmã carola não ia parir nada de seu ventre seco.
-Sim, meu pai, me resigno diante de tua vontade.
-Pois bem. A noiva chega dentro de alguns dias, pois mandei enconmendá-la de Salvador, como é o costume. Aqui nessa cidade minúscula não há moça casadoira de família boa o bastante para fazer par à moça que escolhi. O pai é fazendeiro de açúcar, assim como nós, e bastante rico, como poucos o são.
A noite era escura, pois a lua era escassa no céu. Antônio, tão noivo, se afogava nos copos reluzentes de bebida lustrosa, sozinho entre as açucenas fluorescentes de setembro. O pai morria lentamente, mas sabia que de súbito o golpe fatal lhe levaria para longe. A noiva, no colo da embarcação que a trazia da distante Bahia, mirava a mesma lua magra, indecisa em seu destino solitário.
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