segunda-feira, 31 de outubro de 2011

sonata do fim do mundo

                   A sonata reverberou pelos mundos como uma tambor que anuncia a morte, e o silêncio que se seguiu foi ainda mais alto que seus acordes. A discrepante assepsia de suas tonalidades chocou a todos que a ouviram, em cada um dos universos em que ressoou. Havia brancura, desejo e loucura em sua harmonia pulsante, havia dor em sua musicalidade astuta. Um som que enche o peito, um som que ecoa na alma, a balada trovadora que ruge impávida pelos universos. A sinfonia hiperbólica do choro do amor e do ódio, essa música astuta produzida pelo sussuro de um piano negro como a morte, do lamentar agonizante de um violino alvejado. Não são palavras, jamais o foram em sua devassidão incoerente, o grito arquejante de um milhão de bem-te-vis, o sangue impuro que escorre de um campo oceânico de tulipas decapitadas. O mesmo sangue que mancha o mundo de cólera surda. O sol impávido que incendeia a meia noite dos tempos, essa música que antecede a paz e a guerra, o suave rumorejar das asas de rapina dos anjos que há muito bateram em retirada, é tudo o que nos resta. O amor, a morte, o silência e a música dançam na penunmbra, a espera da inanição a que os condenamos. É a luz que cega, outrora impávida e agora opaca, no fim dos tempos. Afogamos o mundo num oceano de lágrimas peroladas, a beleza e a dor que se abraçam sinceras, pois a dor é bela e a beleza, dolorida. E quando tudo se foi, as brasas quentes do apocalispe de fogo que consumiu as estrelas e os sonhos, quando tudo for chama e silêncio, ai sim restará a música que ecoará pelos tempos na liberdade mútua dos amantes, em tua sacrossantíssima plenitude. A música que ninguém ouve na consciência é a mais rara, mais pura, mais doce. É como espelho persa, esse veludo quente que alimenta as ilusões de um mundo partido, o fogo arquejante que ilumina feito lanterna a terra dos homens perdidos.

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