segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

água negra

A água negra era um colar gelado em seu pescoço alvo, puxando-a para baixo, para longe do sol que despontava no horizonte, por ironia exatamente atrás da capela , filtrando-se por entre a gigantesca cruz e a nas fendas do campanário. Feria com sua luz as colinas de grama verde, as copas das suaves árvores burguesas, as águas turvas da lagoa que se fechavam em seu corpo como garras. Ela se deixava abandonar convulsionada à força dessa abraço, consumindo-a por completo. A vida e suas passagens mundanas e monótonas não mais a interessavam. Afinal se ele estava morto, ela devia estar também, não havia muito sentido em um mundo onde o sorriso dele não existia.
                O vestido ensopado puxava-a para o fundo, e ela já não dava pé. Sentia-se amordaçada pela própria tristeza, o desespero agudo que fechava suas narinas, e não a água gélida que a invadia sem receio. Jamais fora depressiva, amava a vida com o amor dos jovens iludidos, e jamais houve amargura em seus sonhos. Porém não houve golpe mais intenso que a felicidade ceifada em seu auge. O amor brutalmente arrasado com uma espada em chamas, espalhando o sangue pelo corpo inerte de um amor que fora seu próprio assassino. Havia sangue e trevas em tudo, nos retratos, na aliança dourada, no chalé de tijolinho que haviam comprado meses atrás pensando em uma vida nova.
                Não havia mais volta. Deixou-se submergir, atada e inerte, pronta para reemcontra-lo no universo que fosse, pois iria deixar de procura-lo nas vidas que sucederiam. Viu apenas as copas das árvores como joias brilhantes ao sol se distanciando enquanto ela era tragada para a escuridão sem fim. E então não viu mais nada.
                Sentiu que voava. Ouvia o sussurro das asas dançando com o vento, o cheiro etéreo da atmosfera pura, a terra se distanciando como num sonho. Seus olhos estavam cegos de luz, porém não precisava ver para constatar que estava fora do mundo, talvez vagando entre as estrelas. Estava livre do corpo da mente e do coração, apenas o espírito existia em si mesmo, a lembrança do amor era tudo o que carregava. E então entrou novamente nas trevas, num sono acariciado pelas penas de um anjo de luz que a carregava pacientemente para fora de si mesma, resgatando-a silenciosamente, mesmo que por um instante. E então não havia mais nada.
               

                O cheiro de hospital sempre fora a única coisa capaz de enjoar seu estômago resistente. O cheiro de não ter cheiro, a assespsia artificial, tudo era um golpe capaz de revirar suas entranhas. Lentamente tudo isso foi acordando seus sentidos. Os olhos foram os últimos a se abrir, quando o cheiro já a havia violado, e o som de sussuros perfurado seus ouvidos.
                Amanda!! Graças a deus você acordou. Faz dois dias que você só dorme...
                Mãe?
                Não fazia sentido. Lembrava do lago, do vestido de contas a puxando para o fundo como uma âncora de chumbo, mas acima de tudo lembrava de voar por sobre as estrelas no colo de um anjo, para longe da vida, da morte, da existência. O despero lhe fechou a glote de um golpe: Ele estava morto. Ela não.
                Ficamos tão preocupadas quando você desmaiou no meio da igreja, parecia que tinha batido a cabeça, foi tão súbito... Certamente ele não precisava morrer assim, não é mesmo?
                Tudo girava cada vez menos lentamente. A letargia que outrora lhe nebulava os sentidos agora aguçava seus intintos. Vira o lago, sentira com a própria alma a frieza de suas profundezas, era capaz de sentir os ossos trepidando em desespero com a mera lembrança das águas negras, como o coração congelado de uma besta. Era palpável a agonia em suas entranhas, como se ainda se encontrassem alagadas no inferno palustre de onde não tinha ideia de como tinha saido. Era impossível que seu coração lhe induzisse o delírio de um suicídio apenas para reconforta-lhe com a lembrança de que ele estaria lá, a espernado com serenidade do outro lado da morte.
                Onde, onde está a água?
                Sua mãe respondeu ao sussurrar incoerente com um suave pestanejar compreensivo, suas cálidas mãos de mãe envolvendo as suas em um calor quase insuportável. Estou aqui, querida, daqui não sairei. Não há água alguma para te amendrontar. Era incoerente. Devia estar agora submersa em seu túmulo aquático, levando para deitar-se em seu leito todo o esplendor fervoroso de uma noiva em seu auge. Uma noiva enclausurada na tumba opaca de suas lágrimas.

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