Morri um segundo hoje. Certamente não faz muito sentido, mas ocorreu de maneira tão sincera e contundente que não posso deixar de relatar. O azul das minhas unhas reluziu como a chama de um vulcão, por um segundo esse fogo que consome a vida me consumiu também. Não houve filme de vida, ou qualquer desses clichês, arrependimentos tardios por palavras e atos que não chegaram a se concretizar. Houve apenas um súbito espairecer da opacidade que nos cega, um sentimento repentino e explosivo, um revoar de asas de rapina, um alvorecer dourado. Mas foi apenas um segundo. Por um segundo eu estava presa num universo paralelo, numa explosão que implode para dentro de mim. Era um desatre natural que abalava por completo as minhas estruturas, um tufão que me varria os sentimentos e os misturava feito cacos de vidro. Minhas emoções encharcadas de sangue e suor, pingavam de contentamento. Abri os olhos devagar, como quem nasce. A luz foi uma violência a minha existência, uma luz de outro mundo, outra dimensão, outra razão que jamais existia, mas que estava ali me circundando. Assim não sabia se estava morta, mas viva eu não estava. A vida que eu conhecia jamais fora assim. Estava afogada num oceano de luz que se aprofundava de maneira vertiginosa, não importando a força com que eu fechava os olhos. A luz me afogava e me retia feito água, me sentia presa no próprio sol, que me queimava e abatia. Fogo líquido me circundava, me imobilizava e me feria, me violentava com a força de um terremoto. Era violada aos poucos pela força sacrossanta da morte. Um segundo que durou uma vida, uma dezena de encarnações. Uma morte que me tomou por inteira, num império de sentidos gritando e me estraçalhando sem nunca deixar de sentir. Me corpo sentia mais dor, mais amor mais beleza. A morte na própria potência da vida, jamais uma vida inerte de morte. A morte que me acossou num segundo era plena, complexa, pulsante, feito uma droga que envenenou meu corpo por completo num espasmo de eternidade. Era tão forte e poderosa, comparando a vida a um cristal, frágil e inerte. O segundo de plenitude que me alcançou feito um foguete me explodiu para além das nuvens e das estrelas, era simples reflexo da luz dos teus olhos, que me olhou com calor e fez implodir meu coração indefeso, o leve toque dos seus dedos que foi capaz de me matar, de me paralisar feito presa frágil, sem escapatória que morria de amores embalada em sua pele de fogo. O amor que mata é o mesmo que ressucita, num duelo inevitável que se trava na luz dos olhos dos apaixonados sinceros. A morte e a vida só me fazem sentido quando me olhas assim, e me perco no fogo ardente dos seus olhos.
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