Olhei nos seus olhos. Eram da cinzentos como a tormenta, molhados de escuridão. Olhava em meus olhos, sem medo, sem um emitir um som. Sua voz era tão bonita, mas estava calado. Estava sereno, como um monge sentado numa colina de flores. Eu não. Tenho consciência do ódio ardendo nas minhas veias, da tremdeira em minhas mãos de porcelana, do véu de escárnio enevoando minha visão.
O metal em minhas mãos era deveras mais gelado que o inverno em meu peito. A arma negra se mantinha firme no meu pulso, e seu gelo era incapaz de mascarar o calor dos infernos que explodiria no momento em que eu apertasse o gatilho. Os segundos se passavem como em contagem regressiva, e o próprio tempo prendeu a respiração, num silêncio de ensurdecer os sanos. Mesmo a luz se paralisou, infecta pelo esgar sofrido da minha respiração. Ele, no entanto, estava alheio. Seu olhar não implorava, seu corpo relaxado não parecia temer o disparo menos que ansia-lo. Era tão belo, mesmo ali, mesmo agora. A beleza, como aprendi, é imune mesmo à mais imunda das maldades. Parecia sorrir, seu sorriso luminoso e irônico, o sorriso de um pecador.
O cheiro de tulipas ia se intensificando. Eu havia aprendido a relacionar tal cheiro suave com a presença da morte, sabia que seu agradável odor era a simples antecipação da escuridão. Tal consciência, porém, não me acalmou. A morte em si era terrível, mas o assasinato deixava uma mancha na alma que não podia ser lavada e nem retirada sob nenhum preço. A vida dele não tal sacrifício, o de carregar nos ombros a alma acorrentada de um assasinato. O preço de um assasinato era pagar pelos pecados alheios, e eu não estava disposta a carregar em meus ombros as homéricas ofensas desse homem sem alma.
Sua mera existência, porém, era uma afronta a todo o meu ser. Sua beleza obscura e sibilante, como um felino nas sombras, havia me tomado por completo. Com um chicote de domador ele havia subjugado meu espírito, me despido da dignidade e hipnotizado minha alma nua e obediente. Era como um sol imenso e ofuscante, enegrecendo tudo que havia a minha volta. Era como uma força da natureza, inesgotável, implacável, me domando e dominando, até que eu fosse uma simples serva, escrava, muda, cega e surda, dependente de sua voz como o vício de uma droga.
Eu era incapaz de soltar-me. E não sei como o fiz. Maz amor e adoração são coisas distintas. Amor não acaba. Nunca. É como uma doença crônica, enraizada nos genes, controlável, por vezes até imperceptível. Porém ela nunca desaparece, esperando apenas o menor dos discuidos para desencadear uma crise. Adoração é um fogo que queima e arde, que se alimento do sangue e da alma da pessoa, porém que morre tão logo se esvai o combustível. Eu estava vazia. Tudo em mim estava arrasado e queimado, morto pelo fogo da paixão. Eu era uma casca oca de material inerte, e só sobrara em mim ódio. Tudo de bom havia sido engolido pelo fogo que dominara minha alma quando eu não estava em condições de apaga-lo. Toda essa devastação do meu espírito, todo o inverno em meu peito, tudo isso era culpa dele.
Morrer já não era mais um castigo para ele. A arma em minha mãe suspirava de leve, implorando para explodir. Estávamos nós dois naquele quarto estéril, trancafiados em nossas mentes e imersos em nossos prórpios pesadelos,
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