O tempo se arrasta feito as flores que nascem no inverno, como gotas de sangue no tapete de neve. Ele estava sozinho, como sempre estivera. Sozinho entre os cravos, sozinho na neve. O frio que sentia, porém, não vinha da neve. Ele brotava do tutano de seus ossos, do seu espírito congelado. Era um frio glacial, da era gelada em que sua alma estava enterrada.
A pedra cinzenta estava coberta por uma fina camada de gelo, um espelho delicado por sobre a lápide de Lisa Tulley. O mármore estava enregelado, esquecido no alto da colina nevada. A data da morte remetia há mais de meio século, muito antes do nascimento dele. Porém o tempo jamais fora empecilho, suas vidas se cruzaram pelo espírito. Ele, o inverno tenebroso, ela o verão luminoso, uma explosão de luz ardente, com sangue de dragão correndo nas veias. Seu corpo morto estava sob a terra infértil, porém seu espírito inquieto surgia imapciente nas flores do inverno, rosas de um vermelho indecente, vulgares como seus olhos de obsidiana.
Ele era um jovem com o espírito de um ancião, com rosto de impúbere e a vivência de uma mago que atravessou intacto por entre os tempos, procurando-a entre as dimensões. Raramente a encontrava, seu espírito de ninfa habitanto tantas mulheres, porém todas com os mesmos indecentes olhos cor de obsidiana. Inspiravam a vulgaridade do verão, a luz que esfaqueia a pele, o calor que aprisiona o corpo e a mente.
Não era fácil encontrar as mulheres agraciadas por seu espírito, e ele passavam suas encarnações a procura-las, se perdendo entre vislumbres figuzes de uma deusa em corpo de mortal. Ela era efêmera, e o detalhe de um espírito imortal em nada alterava esse fato. Ela era uma brisa e não uma rocha de gelo, como ele. Ela era livre e apaixonada, violenta e mortal, impulsiva e imprevisível, assim como um desastre natural. Era feita de fogo, deixando rastros ainda fumegantes de sua passagem cadente pelo mundo dos mortais, desaparecedo em sua própria poeira de estrela.
Ele tocou as flores de veludo que desabrochavam no inverno, tão quentes como brasa, lentamente derretendo a neve acetinada à sua volta. Eram sua marca, os cravos vermelhos, o amor vivo. Desabrochavam onde estivessem, com a característica temperatura de fogo vulcânico. Passaram-se várias eternidades até que ele percebesse que amor vivo é diferente de eterno, bastante diferente. A eternidade em que ele se arrastava era bastante distinta da efemeridade fabulosa em que vivia sua musa.
Procurou no céu cor de grafite a marca de seus olhos opalescentes. Onda estava tal espírito errante, indomável por natureza, navegando no vento com seu coração no punho? Que humana abençoada iria nascer com a encarnãção de seu espírito? Eram criaturas sublimes, ímpares
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