segunda-feira, 14 de maio de 2012

Os olhos imensos de beduíno estavam distantes quando ele me rejeitou. Suas pestanas de boneca russa varreram seu olhar para longe do meu corpo inerte. Quando as palavras deixaram sua boca elas me atingiram feito tiros entre os olhos, eu pude sentir a pólvora, a carne perfurada, queimada, dilacerada, estilhaçada, violentada. Os estilhaços hiperbólicos dos meus sentimentos encravaram na minha carne feito cacos de vidro, me esfaqueando por dentro. Meu próprio coração implodiu em pedaços de ferro ardente, se derretendo em chama branca, desfazendo cada pedaço da minha sanidade com marcas de fogo vulcânico. Senti-me tragar para um charco de escuridão e água podre, onde você me deixou jogada, nua e arrebentada. Minha alma se rasgava como uma toalha de seda, violentada pelas lâminas do desespero. Sentia uma abstinência de droga, a falta da toxina que suga cada resquício de dignidade, cada traço  de sanidade, cada irrisório fio de razão, tudo por mais um trago do cheiro da sua pele, da textura do seu cabelo, do gosto da sua língua. Havia dor e havia fogo, havia sangue fresco e lágrimas de sal. Um corpo ferido e inerte, uma alma esfarrapada, um espírito agonizante, um coração suicida. Abandomei-me ao fel que brotava das minhas entranhas, à dor repugnantes das facadas, à ardência tóxica que me possuiu no minuto em que você me deixou. O ar se transformou em areia em meus pulmões, presa por grilhões de ferro incadescente que derretiam minha pele até os ossos. Cada pedaço da minha existência gemia em silêncio pela eutanásia desse estado decrépito em que você me abandonou, viva apenas para arquejar a insolência das dores que me violentavam, o puro gosto da sua ausência. O mundo todo era uma loja de cristal se estilhaçando pela fúria do desepero, a explosão destrutiva do meu terror de não te ver refletido em meus olhos. Tudo era dor, caco de cristal encravado fundo na alma pungente. Chafurdando em um pântano escuro de sangue e desespero, incapaz de se manter de pé num terreno movediço que era o mundo em que você não está.

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