segunda-feira, 9 de abril de 2012

                            Anette estava deitada no divã de camurça vinho, de olhos fechados, prestando atenção no barulho que a brisa fazia ao invadir a imensa janela de vitrais da biblioteca. Sentia com o deleite o vestido de noiva de seda marfim se espalhar fartamente pelo sofa e pelo tapete persa branco puríssimo, roçando em sua pele com a delicadez lasciva de um amante. Os cabelos de um loiro opalescente ondulavam com a força de um desastre natural, reluzindo das almofadas até o chão, perto da tiara de ouro decorada com orquídeas nupciais esquecida a um canto. Ela suspirava divertida, bebendo um cálice de estanho até a boca de algum caríssimo vinho galês. Certamente suas intenções não eram das melhores.
                           -Anette.
                          Carole entrou na sala, arrastando seu hábito de monja cinza escuro, com abas nas laterais na cabeça e sapatos de brim horrendos. Anette sempre detestara os tais sapatos, com grossas meias de lã que transpiravam castidade.
                         -Você fugiu.
                         O olhar da sacristã era terrível. Anette analisou sua expressão. A conhecia dês de que tinha cinco anos, quando a monja tinha sido transferida para a paróquia de Castle Lane, e agora, catorze anos depois, achava-a completamente idêntica, com o mesmo imensurável número de rugas na pele parda e os mesmos velhos olhos de aço negro de sempre.
                        - Simplesmente não tive vontade de comparecer à igreja...
                        Levantou-se do sofá envolta em uma nuvem de seda, os implacáveis cabelos acetinados envolvendo a pele de alabastro, parecia um anjo diabólico. Entornou o resto do vinho com sofreguidão, fazendo seus olhos castanhos brilharem de demência. Não havia força no mundo capaz de submeter a vontade de uma menina mimada e infeliz.
                        -Seu pai está furioso. Não foi fácil conseguir o contrato nupcial com Lorde Ambarís, e você seria duquesa da Salamanca. Agora ele está furioso, e não há dinheiro no mundo que pague a humilhação, nem mesmo o do seu pai.
                       Anette não poderia ligar menos. Lorde Ambarís era dez anos mais velho, com uma verdadeira paixão pelos cavalos de seu haras, dos mais famosos da Europa. Anette não queria morar na Espanha, disputando a atenção do marido com um bando de cavalos. Não tinha intenção nenhuma de deixar Castle Lane tão cedo. Seu simplesmente teria que explicar sua conduta e pagar o preço em ouro, como ocorria normalmente. Jamais dava muita atenção a ela, deixava que Carole assumisse o papel de responsável.
                      -Seu pai está furioso, Anette. Como você conseguiu fugir da guarda? Você sabe que esse casamento já está planejado faz dois anos.
                     Anette sabia. Ela atravessou a vasta biblioteca, vestida do chão ao teto com as lombadas macias de couro dos livros, até a bandeja de vidro e madrepérola com a garrafa do vinho galês, já pela metade. Era uma das garrafas do contrabando com que seu pai lidava. A garrafa era elegante, forrada de couro por sobre o vidro esverdeado, e o vinho era suave e matador. Assim como a filha caçula da duquesa de Castle Lane.
                    Lembrava-se claramente do dia em que jogava xadrez com Carole na mesa sob o alambrado quando seu pai chegou acompanhado de Lorde Ambarís. Era um mouro alto, moreno e com olhos negros de aço semelhantes aos de carole em frieza e severidade. Usava botas de montaria e um chicote cumprido preso no cinto. A mediu como uma égua num leilão e a cumprimentou com frieza. Certamente gostou do que viu, uma menina na flor da juventude com cabelos loiros e pele fina, educada como uma madame e tendo como pai um dos lordes mais influentes da Inglaterra. Anette Lane era uma senhora perfeita para a casa de Ambarís. Pena que Anette Lane não concordava.
                 Anette deu um gole sôfrego na bebida. Uma gota do líquido escarlate escapou e escorreu por seu quiexo, manchando a pele alva. Carole suspirou. Anette lentamente se transformava em uma alcoolatra e Lorde Lane não se importava. Só se preocupava com o filho mais velho, com os cachorros de caça e a companhia de navegação, que gerava lucros inimagináveis por ano pelo monopólio do contrabando de vinho galês. Certamente o problema com o casamento da filha não o interessava minimamente.
                Carole viu uma lágrima dançar nos orbes da menina. Havia feito todo tipo de bruxaria e loucura para chamar a atenção do pai. Sabia que seria castigada pelo incidente, porém algumas horas trancada num quarto não eram ameaça. Sentia-se prisioneira no palácio de Castle Lane, não podendo se aventurar além dos muros da propriedade.

Nenhum comentário:

Postar um comentário