Não há nada de heróico num sequestro. Nada de heróico em aterrorizar uma vila, pessoas mais fracas, pessoas frágeis. Porém, para uma alma quebrada, era tudo o que restava.
Não lhes fazia mal, não fisicamente, pelo menos. Apenas gostava de escraviza-las e aterroriza-las. Fazi-as arrumar o castelo, cozinhas parcas refeições, arar a terra e fazer a colheita, cuidar dos animais e das plantas, limpar os arreios e manter a ordem. Moças jovens, mulheres esturricadas, senhoras respeitáveis, velhas corcundas, não havia preconceito. Não eram muitas, e eram sequestradas aos poucos da vila, para que o terror crescesse aos poucos, estrangulando lentamente. Algumas escapavam, completamente exautas e atormentadas, e algumas eram libertas, por serem completamente inúteis. Voltavam magras e meio cegas da escuridão do castelo, e demoravam a se readaptar. No entanto, nenhuma sequer tinha visto o rosto do castelão e vivido para contar a história.
Não mostrava a face, era um príncipe das trevas, como dramaticamente gostava de se auto denominar. Não tinha um exército, apenas uma gurada violenta e fiel, que sequetrava as mulheres e protegia o castelo. Fora a guarda e as escravas sequestradas, seus empregados, era sozinho no mundo. Não via ninguém e se mantinha trancado no alto da torre, sendo alimentado por uma empregada velha que deixava a bandeija e depois ia embora, sem lhe ver. Gostava de se lacrar no alto da torre, em seus aposentos, onde só recebia o chefe da guarda sangrenta, e mesmo assim não o olhava. Dava ordens de sua poltrona de espaldar alto, virada para o fogo, sem nunca encarar o subalterno.
Alicia catava morangos ligeiramente afastada da vila, onde estavam os frutos mais tenros, na borda da mata espessa. Ouviu os cascos dos cavalos martelando as pedras da estrada, e viu ao longe as capas negras dos soldados ondulando como bandeiras ao vento.
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